‘A Lua vem da Ásia’: atuação de Chico Díaz é o grande destaque no monólogo

Luciana Kezen

Luciana Kezen

35 anos, bacharel em Artes Cênicas pela UNIRIO, licenciada em Letras pela Estácio de Sá, atriz, escritora, tradutora e ávida leitora nas horas vagas.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Assistir a um ator com experiência no palco é algo delicioso como um bom vinho. E digo experiência e não idade, por favor. Conheço algumas tantas pessoas que aos 30 anos, já tinham mais de vinte anos de palco. É sempre algo maravilhoso, não importando a idade, sabe?

Um bom monólogo conta com um ator que saiba preencher o palco. Aquele talento ali, andando de um lado para outro ou até sentado (lembro de ter assistido à Dama Fernanda Montenegro sentada fazendo um monólogo, e nossa… como ela ocupava bem aquele palco!).

Acho que a auto confiança fica transparente mesmo quando esses talentos representam os personagens mais inseguros. Chico Díaz estreou o monólogo “A Lua Vem da Ásia” há um certo tempo, alguns anos atrás, em 2011, e eu tive o privilégio de assisti-lo esta semana. Englobado no projeto #emcasacomsesc, mais uma boa ideia que surgiu durante esta pandemia interminável, a peça foi gravada em dezembro do ano passado e está disponível no YouTube (assista aqui).

Campos de Carvalho já foi adaptado mais de uma vez para o teatro. Algo que não parece ser uma empreitada fácil, no entanto se revela prazerosa… Pelo menos para assistir. Poder ver a experiência de Chico Díaz enfrentando a fúria, loucura emocional e inteligência bem humorada de Campos de Carvalho é algo que mais vale na peça.

A loucura é o tema central de “A Lua Vem da Ásia”, que marca o nascimento da narrativa surrealista do escritor mineiro. Díaz, também responsável pela adaptação do livro para o palco, narra e vive a saga de um homem que mistura alucinações e recordações de suas andanças por diversos países. O espetáculo retrata o diário do personagem, que está hospedado em um hotel de luxo – ou em um campo de concentração, talvez um manicômio. A
todo tempo, sua capacidade de ser e de pensar livremente está por um fio. Tendo a expressão como seu único escape, ele se torna o narrador de um mundo governado pela lei do absurdo, mas que guarda semelhanças com a aparente normalidade cotidiana.

Chico Díaz atua e também assina a adaptação do livro para o palco Foto: Jaqueline Machado/Divulgação

Com direção de Moacir Chaves e supervisão de Aderbal Freire-Filho, o espetáculo é carregado de humor ácido, em uma verdadeira ode à liberdade. Tenho um certo apreço pelos loucos, pelos que veem a realidade diferente dos demais. Sempre me prende a atenção a solidão da loucura ou de um monólogo bem executado como este.

Gosto do detalhe de quando o personagem aparenta estar usando uma máscara. Gosto dos móveis, neste cômodo que não sabemos muito bem onde é, serem pequenos (cadeiras, mesa, criado-mudo, banco, piano, cama), me passa uma sensação de falta de controle… O torna mais delicioso ver o controle absoluto que a interpretação de Chico Díaz tem sobre mim.

Não sei exatamente como vão ficar todos estes espetáculos online que estão disponíveis no momento, sei que estou aproveitando o máximo que posso. Sinto uma enorme saudade de estar dentro de um teatro, no entanto, sei que também sentirei falta de toda essa diversidade disponível no meu computador.

Um aceno de mão efusivo e até a próxima semana.
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para luciana.kezen@rioencena.com.

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