‘A Protagonista’: metalinguagem interessante, dinâmica e interação, mas pouco aprofundamento sobre protagonismo feminino

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Está sendo muito interessante acompanhar a forma como o teatro vem se ajustando ao mundo online. Há duas semanas, discuti sobre esse tema nesta coluna e hoje volto trazendo o espetáculo “A Protagonista”, do Coletivo Paralelas, com direção de Juliana Soure. A obra exemplifica esta adaptabilidade, não apenas por ter sido inicialmente pensada para o palco – e com a pandemia teve que se acomodar à nova cena – mas, sobretudo, porque incorpora a linguagem da plataforma em que é transmitida no próprio fazer.

Em uma interessante metalinguagem, utiliza de vários recursos da plataforma Zoom para a sua construção, aumentando a experiência do espectador que, em determinados momentos, também constrói a narrativa. A possibilidade de interagir pelo chat trouxe dinâmica e a dúvida se havia algo de encenação performática naqueles comentários ou se eram espontâneos do público.

Por meio dos descompassos, congelamentos, ruídos e delays próprios das conferências online, a história se desenrola em um grande jogo cênico: a partir da premissa de uma entrevista de emprego, uma atriz convidada (e que não conhece o texto!) entra em cena para jogar com as atrizes fixas – Aliny Ulbricht, Carol Barbosa, Rosa Nogueira, Tatiane Santoro -, numa mistura de ficção e realidade em que entrelaçam as experiências femininas nas relações e nos trabalhos remotos. Quando assisti, no último domingo, a convidada era a atriz Gabriella Cristina que, no início parecia tensa e um pouco perdida na própria dinâmica da peça, mas rapidamente se integrou à narrativa do improviso. As próximas atrizes a contracenar são Debora Crusy, Fernanda Dias e Bárbara Jordão.

O "ambiente virtual" de "A Protagonista" Foto: Reprodução/Zoom
O "ambiente virtual" de "A Protagonista" Foto: Reprodução/Zoom
O "ambiente virtual" de "A Protagonista" Foto: Reprodução/Zoom
O "ambiente virtual" de "A Protagonista" Foto: Reprodução/Zoom

A discussão pouco aprofundada sobre protagonismo feminino se entrelaça à tentativa, no jogo cênico, de fazer da atriz convidada/nova funcionária a protagonista que nomeia o espetáculo. Embora tenha achado original, principalmente pela ideia da vigilância da personagem que lembra George Orwell no romance “1984”, não sei se a mensagem fica clara para todos que assistem.

Gostei da discussão, no subtexto, do novo (nada!) normal com críticas à retirada dos direitos trabalhistas e a incorporação do home office. Entre os risos, cansaços e dramas, saí refletindo no quanto o ano de 2020 nos obrigou a mergulhar em uma nova realidade virtual com desafios e violências atualizados para este novo modo de interagir com o mundo.

“A Protagonista” fica em cartaz online até esse domingo, dia 11. Os ingressos gratuitos podem ser adquiridos aqui.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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