‘A Tropa” é um intrigante e nada óbvio estudo sobre relações familiares

Luciana Kezen

36 anos, bacharel em Artes Cênicas pela UNIRIO, licenciada em Letras pela Estácio de Sá, atriz, escritora, tradutora e ávida leitora nas horas vagas.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Terminei o ano passado falando da peça “Alair”, do Gustavo Pinheiro, e começo este ano falando dele de novo. Nada como encontrar um excelente autor prolífico. Parabéns, Gustavo. Lembro quando “A Tropa” estava em cartaz no Solar de Botafogo, mas não me lembro porque não consegui assistir… Ainda bem que agora ela se encontra disponível no YouTube (assista aqui).

Depois de uma queda, o patriarca de uma família vai parar num quarto de hospital e, enquanto se recupera, recebe a visita dos quatro filhos. Com clássicas brincadeiras e implicâncias entre os irmãos, personagens construídos com personalidades bem fortes e diferentes, os cinco familiares se enfrentam neste quarto de hospital, onde a recuperação não envolve só o estado de saúde do pai, como também a relação entre eles.

Gustavo Pinheiro entremeia o texto com delicadas sequências em flashbacks, onde nos são revelados traços das personalidades de cada um dos personagens. Adriana Ortiz dá beleza e destaque a estes flashbacks com sua iluminação. E são em com estas voltas no tempo que esta estória vai se desdobrando com mais profundidade. Temos a oportunidade de presenciar fragilidades, revoltas, vida particular destes familiares, que se amam e têm muita intimidade um com outro.

Em novembro de 2014, enquanto morava em Nova York, assisti a uma peça off Broadway da Sul Coreana Young Jean Lee chamada “Straight White Men”, o que seria “Homens Brancos Héteros”. Lembro que fiquei um pouco decepcionada ao sair daquela peça por me achar que não chegava a lugar algum aquele texto. Não me prendeu.

O espetáculo está disponível no YouTube Foto: Reprodução/TouTube

Comecei a assistir a “A Tropa” e confesso que pensei que estaria indo para o mesmo lugar. Como fiquei feliz em estar errada! Com Otavio Augusto fazendo este pai, que sabemos estar com a saúde um tanto debilitada, e que logo na primeira aparição começa com uma piada, o quarto do hospital vai se tornando mais íntimo com a chegada de cada filho.

A escolha da direção de Cesar Augusto, por ter colocado plateia dos dois lados do palco, fazendo deste quarto de hospital um ambiente muito mais claustrofóbico que o de costume, foi excelente.

Ticiana Passos assina os figurinos de uma forma que parece simples. E é genial! Percebi um trabalho na escolha das roupas utilizadas em cena que facilitam o entendimento destas pessoas tão diferentes. Temos um pai, coronel, sem farda e com um curativo na cabeça, sem duvida um personagem nada frágil, nem delicado. Belas escolhas.

Eduardo Fernandes, Alexandre Menezes, Daniel Marano e Rafael Morpanini são os quatro irmãos que, muito bem escalados.

Indico aqui com segurança este espetáculo que me entreteve nesta semana. “A Tropa” é um intrigante estudo sobre relações familiares. E pensando em familiares, relações próximas e íntimas, por favor, não esqueçamos da pandemia. Ainda não temos vacina por aqui, é sempre muito importante lembrar de usar máscara ao sair de casa e lavá-las sempre que possível.

Um aceno de mão efusivo e até a próxima semana.
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para luciana.kezen@rioencena.com.

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