Afrofuturismo: que o teatro negro brasileiro incorpore-o cada vez mais em seus fazeres artísticos

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

O afrofuturismo é um movimento cultural difundido como vertente artístico-filosófica negra, que interrelaciona a ancestralidade e signos africanos e afrodiaspóricos do passado e do presente para projetar um futuro honroso, digno e pleno. Utilizando-se de uma estética tecnológica, metálica e cyber, o afrofuturismo é a reflexão, a partir das tecnologias ancestrais e contemporâneas, sobre formas de conjurar o passado de escravidão, o presente de maafa – desgraça coletiva negra -, pondo em cheque a história hegemônica e propondo um futuro tangível para a população negra.

Com muitos adeptos no mundo em diversas esferas artísticas, esse movimento cultural, surgido na década de 1960 com Sun Ra, ganha cena juntamente com a juventude negra que ocupa cada vez mais espaços no cenário científico e artístico-cultural. Literatura, música, cinema, moda, design são áreas de manifestações Afrofuturistas. Busca-se uma reconexão com a africanidade por uma via afrocentrada, resgatando as cosmologias e mitologias atrelando-as à tecnologia e projetando um futuro.

Segundo Fábio Kabral, escritor afrofuturista e teorizador da área no Brasil, o Afrofuturismo possui quatro características básicas: protagonismo de personagens negros, narrativa negra de ficção especulativa, paradigma da afrocentricidade e autoria negra.

Quando se trata de teatro, o Afrofuturismo está cada vez mais ocupando lugar nas escolhas estéticas das companhias teatrais, fortalecendo a produção dramatúrgica de autoria negra e especulando possibilidades de futuros. Portanto, não basta ter o protagonista negro em cena – representatividade importa, mas não é o bastante – , é preciso que toda a concepção do espetáculo parta de núcleos criativos negros. Assim, montagens que bebem na estética afrofuturista para sua composição, com figurinos e cenários, mas sem o protagonismo negro no encabeçamento criativo, na produção e na tomada de decisão, não são consideradas pertencentes a este gênero, que agora também é dramatúrgico.

Gosto muito de usar como exemplo de obra afrofuturista que atende às categorias apresentadas por Kabral, o espetáculo “Dandara e Bizum – A Caminho de Wakanda”, da premiada Confraria do Impossível, que esteve em temporada em 2019 e que eu estou na torcida por uma volta – mesmo que online!

O infantojuvenil, cujo fio suleador é afrocentrado, é um bonito trabalho de pesquisa e aprofundamento nos fundamentos africanos e afrodiaspóricos, por meio de uma arte contemporânea, lúdica, fruitiva, em diálogo com a cultura pop e, principalmente, refletora-coletiva dos dramas da existência humana a partir do olhar sagaz de duas crianças negras periféricas faveladas.

Valores como coragem, heroísmo, amor, respeito aos mais velhos, igualdade de gênero, ancestralidade, preservação do meio ambiente e cuidado com o próximo costuram toda a obra, transmitindo mensagens éticas de bom relacionamento consigo, com o outro e com o mundo. E tudo isso concebido na estética afrofuturista de um cenário (Tarso Gentil) hi tech com adinkras e neon, figurino (Reinaldo Jr. e Rona Neves) funcional e afroreferenciado e um texto especulativo de autoria negra (André Lemos), que articula o passado quilombista da diáspora afrobrasileira com o presente periférico e um futuro wakandense glorioso.

Narra-se as aventuras de duas crianças negras, Dandara (Juliane Cruz) e Bizum (Wayne Marinho) – arquétipos dos heróis negros Dandara e Zumbi dos Palmares – moradoras de um quilombo-favela chamado Palmares no Rio de Janeiro, que precisam partir em uma perigosa viagem à Wakanda, com o objetivo de encontrar lá a cura para os males do mundo e para fazer o sol voltar a brilhar. Nesta viagem, encontram percalços e precisam colocar em prática os valores éticos de ubuntu e aquilombamento para sobreviverem, assim como as diásporas o fizeram. Há, ainda, um crescimento e transformação do menino Bizum, que parte de Palmares, para o Zumbi (anagrama de Bizum), que combate o dragão/caveirão e torna-se um herói civilizador negro brasileiro.

Esse espetáculo é um fôlego que aponta que o “futuro é preto” e que o Afrofuturismo é um gênero completo já estabelecido no país. Fico vibrando para que o teatro negro brasileiro incorpore-o cada vez mais em seus fazeres artísticos.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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