‘Alair’ é poesia por todos os lados

Luciana Kezen

Luciana Kezen

35 anos, bacharel em Artes Cênicas pela UNIRIO, licenciada em Letras pela Estácio de Sá, atriz, escritora, tradutora e ávida leitora nas horas vagas.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Estamos a poucos dias do Natal, o que significa que o ano acabou. Só que este ano de 2020 não vai acabar, né? Vai seguir de um mês para outro, arrastando tudo que veio com ele e recusando a ir embora, a chegar a um fim.

Um pesadelo recorrente que tenho tido é o de que no dia 31 de dezembro, quando passarmos de 23:59 para 00:00, o ano de 2020 não vai terminar. Vai começar de novo. E quem é que garante que essa não é a melhor opção? Que não seria melhor apagar este ano tão nefasto e fazer de conta que vamos começá-lo agora? Bobeira da minha parte… Sei muito bem que isso é ridículo.

E neste finalzinho de 2020, eu, que já havia desistido de procurar algo novo para assistir, pelo menos, algo novo para mim, me deparei com uma necessária peça no YouTube.

“Alair” é sobre a vida do fotógrafo, crítico de arte e professor Alair Gomes. O texto de Gustavo Pinheiro tem uma poesia sonora, uma delícia de escutar. Poesia tal que não cansa nem um pouco na voz Edwin Luisi. Um talento abraçando outro.

Com um texto entrecortado – que dá uma dinâmica à forma da peça e com piadas muito bem posicionadas – o espetáculo acontece com uma boa fluidez. A história contada em cena foca mais nas décadas de 40 a 60, conta um pouco da vida desse talentoso fotógrafo brasileiro.

O cenário de Mariana Villas Boas faz com que todo o palco vire um grande estúdio fotográfico, dialogando muito bem com o texto sobre um fotógrafo. Uma boa sacação! Junto com a iluminação de Tomás Ribas, que dá destaque às fotos do próprio Alair Gomes que são reproduzidas e também aos corpos de Andre Rosa e Raphael Sander, dois atores que além de terem corpos lindos como os das fotos de Alair Gomes, também são talentosos. Destaque para o bom uso de sombras pelo iluminador, muito bem utilizado.

Foto: Divulgação

Os dois jovens atores não ficam atrás da interpretação de Edwin Luisi, que nos guia por essa história com maestria. Toda sensibilidade e vulnerabilidade dos três atores em cena me aconchegaram de uma forma difícil de explicar neste final de ano. Andre Rosa e Raphael Sander fazem bem os tipos para qual foram escalados.E Luisi ainda esbanja charme falando seu texto em português, francês e italiano.

Cesar Augusto dirige a peça dando valor ao humor do texto tanto quanto aos corpos e imagens criadas. Em um momento tocante e revelador, Davi de Michelangelo aparece em cena. Arte para todos os lados!

Os figurinos de Ticiana Passos em tons pasteis nos remetem a um mundo sépia, antigo, como uma longa memória cênica. Uma memória que nos conta um passado que ainda se mantém extremamente presente na mente de muitos.

Completando a ficha de talentos reunidos neste projeto, a trilha sonora de Rodrigo Marçal funciona perfeitamente com as dores de cotovelo reveladas em cena. Um belo trabalho!

Gostaria de aproveitar e agradecer à HM Produções por ter disponibilizado este espetáculo online. Tenho me agarrado a todas as peças que me aparecem para ver se consigo manter a sanidade durante esta pandemia. Muito obrigada!

Um aceno de mão efusivo e até a próxima semana.
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para luciana.kezen@rioencena.com.

ERRATA: ao contrário do que informamos inicialmente, a apresentação disponível no YouTube tem no elenco o ator Raphael Sanser, e não Claudio Andrade. Com isso, o elenco é formado por Edwin Luisi, Andre Rosa e Raphael Sander. O erro já foi corrigido.

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