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Alexandre Lino: O teatro e a comunhão humana

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Alexandre Lino*
Tempo estimado de leitura: 3 minutos

A pesquisadora e professora de Arte Dramática, Béatrice Picon-Vallin¹, afirmou em uma entrevista de 2011, que: “O teatro, há muito tempo, não é mais, de forma alguma, uma arte dominante. Sabemos que ele foi ultrapassado por muitas outras artes e mídias; no entanto, é uma arte que resiste”².

A assertiva de Picon-Vallin reflete sobre o Teatro na França, país que até hoje mantém uma relação de respeito com seus artistas, e estes devolvem igual respeito ao público.  Atravessando essa relação, o Estado segue cumprindo o papel de fomentar a arte e a educação. O exemplo francês, em que pese a crítica da pesquisadora, é inspirador, sobretudo quando observamos a realidade da arte, em especial a teatral, no Brasil. O presente artigo efetua uma breve análise de ações que expressam a resistência do teatro em solo brasileiro em 2021.

Fazer Teatro no Brasil é insistir em um ato de rebeldia, sem precedentes. Primeiro, porque viramos, muitas vezes, apenas uma carta no jogo político; segundo, porque o público se distanciou das salas de espetáculos por inúmeros erros que cometemos, como, por exemplo: a falta de compromisso com o espectador e, por último, porque vivemos uma disputa de classes numa atividade que deveria preservar a coletividade e suas “leis naturais”.

Desde o surgimento do Cinema, seguido da TV, da Internet e agora do Streaming, que falsos profetas declaram a morte do Teatro, e um certo pânico se instaura na “classe”. Não bastassem esses adventos, ainda fomos impactados por uma pandemia que nos retirou de cena e, mesmo assim, seguimos. Descobrimos o Teatro online, Drive-in, Híbrido e o show continuou com cara de novos tempos, apesar dos perigos.

O fato é que de tempos em tempos somos obrigados a encontrar um novo sentido para tudo, inclusive para fazer Teatro. É a vida! Porém, montar uma peça, subir ao palco e encontrar algumas poucas pessoas dispostas a ouvir nosso “discurso”, é fazer Teatro? Eu ousaria dizer que não. Esquecemos do público. Segundo Grotowski: “O Teatro só não pode existir sem o relacionamento ator-espectador, de comunhão perceptiva, direta, viva”³.

A diversidade de linguagens, a reverência aos clássicos, o experimento e a provocação são fundamentais para a liberdade criadora. No entanto, a exaltação a um conceito equivocado de belo, de correto, de inteligência, encapsularam as nossas manifestações populares, a fala simples, as histórias dos anônimos e periféricos como uma arte de ponta de estoque e que só merecerá destaque quando estiver atendendo as demandas capitalistas ou servindo a elite da esfera das artes.

Alexandre Lino é ator, produtor, diretor e mestrando em Artes Cênicas pela UNIRIO Foto: Edson Gomes

Mas, aos poucos, imersos numa pandemia que ainda não acabou, fomos olhando, mesmo sem querer, para os lados, para trás e assim descentralizando uma visão reducionista do poder das Artes Cênicas e seu alcance. Difundiu-se uma ideia de solidariedade intelectual um tanto perversa e capitalista. Ou seja, muito pouco ou nada de fato mudará. Seguiremos com a comédia, o popular, o amador, os sem patrocínio, os fora do eixo sendo os filhos pobres do Teatro.

Diante desse panorama, fui tragado por grandes experiências teatrais-transformadoras que posso agora testemunhar: “Uma Peça para Salvar o Mundo” (Satyros / SP), “A Moscou! Um Palimpsesto” (Cia. Setor de Áreas Isoladas / DF), “Turmalina 18-50” (Cia Cerne / RJ) e “Ser'Tão TRAVESTI” (Coletivo Cotinha / CE). Espetáculos distintos em forma e conteúdo. O primeiro encenado online pelo zoom, o segundo no palco italiano, o terceiro de forma itinerante em uma casa e o último em espaço alternativo.

O que amálgama essas peças, de forma poderosa, é o fato de o público ocupar nesses trabalhos um papel tão relevante quanto o dos atores. Eles são a alma dessas histórias e por essa razão podem, são convidados e devem se sentir vivos e atuantes como os artistas. Afinal, o papel da arte seria, então, a comunhão humana ou o só prestígio intelectual? Como bem profetizou Procópio Ferreira: “O artista não educa o público. Este é que educa o artista. Arte é reflexo”⁴. Feliz Ano Novo!!!


Referências

[1] A Diretora de Pesquisas no CNRS, ARIAS (Centre National de Recherche Scientifique – França) e Professora do História do Teatro no Conservatório Nacional Superior de Arte Dramática de Paris.

[2] Picon-Vallin, B., Veloso, B., & Oliveira, C. A. de A. (2011). Teatro híbrido, estilhaçado e múltiplo: um enfoque pedagógico. Sala Preta11(1), 193-211. https://doi.org/10.11606/issn.2238-3867.v11i1p193-211

[3] GROTOWSKI, Jerzy. Em Busca de um Teatro Pobre, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1987, p. 17.

[4] PRADO, Décio de Almeida. Procópio Ferreira, Brasiliense, São Paulo, 1984, p.88.

*Colunista convidado do RIO ENCENA, Alexandre Lino é ator, produtor, diretor e mestrando em Artes Cênicas pela UNIRIO


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