Ao vivo no teatro, filmado e online na pandemia: como foi assistir à mesma peça e ter três experiências distintas

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Nesta pandemia, eu tenho assistido a muitas lives, espetáculos online e apresentações performáticas adaptadas para o cenário das casas dos atores. E tem sido um acalanto na minha saúde mental! A arte, realmente, é um potente agente para o nosso equilíbrio diante do desgoverno, descalabros e mortes que vivemos.

O curioso é que tem um espetáculo que eu vi no palco há cerca de dois anos, assisti online no início da pandemia e, no último domingo, revi no formato de live proposto pelo Sesc São Paulo no projeto #sescemcasa. Estou falando da incrível obra “Traga-me a Cabeça de Lima Barreto”, monólogo interpretado por Hilton Cobra, com direção de Fernanda Júlia e dramaturgia de Luiz Marfuz.

No espetáculo, Cobrinha incorpora o importante escritor afro-brasileiro em um texto fictício onde, a partir da morte de Lima Barreto, eugenistas exigem a exumação do seu cadáver para uma autópsia com objetivo de descobrir como um homem negro poderia ter produzido tantas obras literárias de “boa escrita como as das raças superiores”. Esse é o mote para um passeio pela genialidade do escritor. Em um embate com os eugenistas, nos aprofundamos em sua vida, conhecemos sua família, acompanhamos seus dramas de loucura e alcoolismo, lidamos com suas frustrações e com os atravessamentos do racismo.

Na minha primeira experiência com o espetáculo, me senti arrebatada tamanha violência do texto. A eugenia é um tema ainda muito atual no Brasil – existem atualmente 334 células nazistas em atividade no território nacional, segundo dados da pesquisadora e antropóloga da Unicamp Adriana de Abreu Magalhães – e nomes como Francis Galton se juntam ao de Nina Rodrigues para promover a (pseudo)ciência eugenista que ditou políticas públicas racistas contemporaneamente a Lima Barreto.

A segunda experiência com a peça foi em formato gravado e ainda havia o palco e a plateia. Quando assisti, senti falta de estar presente no ao vivo, mas era início da quarentena e estava começando a entender que espetáculos gravados fariam parte desse novo (nada) normal.

A live de "Traga-me a Cabeça de Lima Barreto" foi transmitida da casa do ato Hilton Cobra pelo Sesc SP (Reprodução/Youtube)
A live de "Traga-me a Cabeça de Lima Barreto" foi transmitida da casa do ato Hilton Cobra pelo Sesc SP (Reprodução/Youtube)
A live de "Traga-me a Cabeça de Lima Barreto" foi transmitida da casa do ato Hilton Cobra pelo Sesc SP (Reprodução/Youtube)
A live de "Traga-me a Cabeça de Lima Barreto" foi transmitida da casa do ato Hilton Cobra pelo Sesc SP (Reprodução/Youtube)
A live de "Traga-me a Cabeça de Lima Barreto" foi transmitida da casa do ato Hilton Cobra pelo Sesc SP (Reprodução/Youtube)

Hilton Cobra, que comemorou seus 40 anos de carreira neste monólogo, está magistral. Intenso, insano, perspicaz. O movimento em cena é firme e angustiante, mérito da direção de movimento assinada pelo Zebrinha (outro mestre!). O cenário de Márcio Meirelles é clean e utiliza-se o audiovisual para interação da personagem com os eugenistas.

Nesse sentido, na minha última experiência com a obra no formato de live, senti falta do minimalismo cenográfico, e o uso da TV para a interação audiovisual não foi totalmente bem sucedido em termos de imagem captada para os espectadores. Obviamente que não retira a potência do texto e da encenação, mas o fato de se fazer o espetáculo na casa do ator, interferiu na questão cenográfica e eu, que estava acostumada aos poucos elementos cênicos das apresentações anteriores, me vi reparando nas máscaras africanas da parede da sala ou nos objetos dos móveis.

A cabeça de Lima Barreto com o cérebro cravejado de búzios me impactou todas as vezes. Um bonito trabalho de arte que reúne o simbólico eugenista discutido, a estética africana e a metáfora do cérebro valioso, relacionando os búzios ao seu valor de moeda no continente africano. Bonito de ver.

Um ponto alto da última apresentação é a forma como a câmera incorpora o movimento angustiado da personagem, pois conseguiu captar e produzir a mesma sensação que senti nas outras experiências. Independente do formato que acessamos, “Traga-me a cabeça de Lima Barreto” é uma obra de arte. E me pergunto até hoje por quais motivos Hilton Cobra não levou prêmios de melhor ator por esse espetáculo.

Sobre a avaliação dos formatos, ao vivo é sempre melhor, claro. A gravação do espetáculo também foi interessante e o formato live, apesar das várias limitações técnicas, é uma possibilidade de desafiar os fazedores de arte instigando-os à inovarem se adaptando aos novos tempos.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.br.

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