Após período sabático, ator Márcio Nascimento estreia quatro espetáculos na Internet em maio: ‘Sensação de estafa, mas prazeroso’

Luiz Maurício Monteiro

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Márcio Nascimento em cena no infantil “O menino que plantava flores” e no adulto “Entre homens” Fotos: Chico Lima e Reprodução

Marcio Nascimento, como se diz no popular, tinha tudo para bombar em 2020. Desde o início do ano, o ator via engatilhadas várias empreitadas, incluindo espetáculos infantis, um solo adulto com o qual se apresentaria até fora do país, um projeto escolar… Mas aí veio a pandemia, e aquela agenda lotada deu lugar a uma escassez de atividades profissionais – para não ficar parado, ele decidiu até ajudar um sobrinho numa loja de suplementos nutritivos em Niterói. Entretanto, com a virada para 2021, a maré virou, trazendo uma enxurrada de trabalhos na área artística, que ele admite ter sido desgastante, mas não reclama.

Até mesmo porque a situação se deu de forma involuntária. Entre janeiro e março, as propostas foram surgindo, e o ator carioca, quando se deu conta, estava em 11 frentes diferentes, exercendo diversas funções. Restou encarar o desfio, após aquele período sabático (e forçado!).

— Era uma sensação de estafa, porque era de domingo a domingo. Eu só parava para comer e dormir. Não tinha um descanso de um trabalho para outro, porque todos exigiam muito esforço, muita atenção. Mas foi prazeroso e fiquei muito agradecido — ressalta Marcio, lembrando a incursão no universo dos suplementos: — Não tinha trabalho fixo, fui ficando assustado. Aí precisei entender de Whey Protein (risos). Mas foi um período bom para me reaproximar dele (do sobrinho), da minha irmã. Teve um conforto da família, não houve um ótimo ganho financeiro, mas me senti com o coração aquecido.

Dos 11 trabalhos que encarou simultaneamente num intervalo de três meses, Marcio vê o resultado de quatro deles agora na Internet. E dois têm sua assinatura na direção, elaborada especialmente para o formato online. Um é “Seu Miguel, Seu Miguel”, que fala do olhar para o outro a partir da amizade entre uma menina perdida dos pais e um senhor receoso com o avanço da tecnologia sobre o artesanato.

O outro é “O menino que plantava flores” – em que ele também atua e assina o roteiro com Aline Marosa – cujo tema central é o bullying, problema que acomete diversas crianças e jovens, inclusive o protagonista da peça, que sofre por gostar de flores. Em comum, além da assinatura de Marcio na direção, as duas montagens são encenadas a partir da linguagem de animação, com bonecos e máscaras, o que já se tornou uma marca da carreira profissional de 25 anos do ator. Experiência esta, aliás, que o ajudou na hora de adaptar a técnica do teatro presencial para o online.

— No teatro, o boneco “olha” para o público, ele se comunica com os espectadores. E a máscara também, porque ela se alimenta do jogo com o público. Já no cineteatro, o boneco está fechado numa quarta parede, como se fosse um cinema. Não tem este diálogo. Mas não tive dificuldade para entender isto, não – salienta Márcio.

“O Menino que plantava flores” usa bonecos na encenação e foi gravado em espaços abertos Foto: Chico Lima/Divulgação

A dificuldade para conduzir a linguagem de animação, inclusive, não tirou o sono de Marcio nem no caso de “O menino que plantava flores”, que não foi filmado num teatro, mas em espaços abertos como o Campo de São Bento, em Niterói, e o Parque Lage, no Rio de Janeiro. Nestes lugares, o percalço foi outro.

— Decidimos ir para estes lugares porque o espetáculo pedia. O projeto cresceu para um tamanho que ele tinha que ter. Dificuldade houve um pouco para iniciar o trabalho, mas foi só. O problema foram os macacos-prego que quiseram se aproximar, e o cinegrafista tinha medo (risos) – lembra.

Ainda para o público infantil, Marcio Nascimento está em “Dalva, minha avó e eu”, uma homenagem online à cantora da era de ouro do rádio Dalva de Oliveira (1917-1972). Já para os adultos, ele integra o elenco da peça “Conectados”, que faz parte do projeto Entre Homens, que discute questões LGBT+ (a outra peça do projeto é “Por amor”, que fala uma política contra a vida de homossexuais no leste europeu).

Márcio (de óculos) em “Conectados”, do projeto Entre Homens Foto: Reprodução

Em “Conectados”, Marcio – que gravou de casa – vive um brasileiro que conhece um nigeriano muçulmano através de um chat online voltado para gays. A partir deste encontro, a peça passa por questões como as possibilidades e os riscos das relações virtuais, a exportação da cultura gay ocidental e suas consequências.

E embora a relação retratada no espetáculo seja homoafetiva, Márcio tem a expectativa de um público heterogêneo na curtíssima temporada virtual que vai até o próximo dia 16.

— Por mais que seja uma peça LGBT, ela pode dialogar com qualquer pessoa porque fala de solidão. É a história de um homem que vaga pela Internet buscando uma companhia e encontra prazer fácil. Pelas pessoas envolvidas – o diretor Cesar Augusto e o autor Rogério Corrêa – acho que vamos ter um público que já é fiel ao teatro. Sei que muita gente fecha os olhos para esse assunto, mas espero uma gama boa de público — encerra.

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