Aptr lança mostra em auxílio a trabalhadores de teatro, e produtora lamenta atuação do poder público: ‘Muito lento’

Luiz Maurício Monteiro

Tempo estimado de leitura: 6 minutos

A mostra vai até o dia 31 de maio (Divulgação)

A Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (Aptr) lançou nesta sexta-feira (08) a E-CENA – Mostra de Teatro Online, projeto que vai promover diferentes manifestações artísticas nas plataformas digitais do grupo (Instagram, Facebook e Youtube). Até 31 de maio, dezenas de artistas vão se apresentar de suas casas, nos fins de semana, em várias performances e atividades, muitas ao vivo – confira a programação completa no fim da página. A ideia é fazer da iniciativa, que conta apenas com participações voluntárias, um trunfo para turbinar as doações à campanha “Aptr ao lado dos trabalhadores de teatro”, que vem auxiliando profissionais do setor – de artistas a técnicos, passando pelo pessoal da bilheteria, da limpeza – sem qualquer fonte de renda nesta quarentena por conta do coronavírus.

Até o momento, em pouco mais de um mês, 650 trabalhadores foram beneficiados com cartões VR (Vale Refeição) no valor de R$ 500. O número – que ainda não se aproxima da meta traçada de 1.000 contemplados, mas satisfaz os organizadores – foi alcançado com doações de pessoas físicas da própria classe artística – fonte esta que parece estar secando. Daí então veio a ideia da mostra, que oferece conteúdo artístico inédito ao público, que, por sua vez, poderá fazer doações através de um QR Code ou um link exibidos durante as atrações na tela do dispositivo (celular, SmarTV…).

Mas ainda que os resultados obtidos até então e a nova empreitada para angariar mais fundos sejam motivo de orgulho para a Aptr, fica aquela sensação de que as colaborações poderiam estar vindo de direções distintas. A produtora Bianca de Felippes, integrante do colegiado da associação, conversou por telefone com o RIO ENCENA e afirmou que, desde o início da campanha, o grupo vem tentando apoio de empresas, mas sem sucesso.

Outro auxílio buscado tem sido o de poderes públicos, mas aí os obstáculos, segundo Bianca, são a burocracia e a falta de um maior interesse. Na entrevista abaixo, a produtora faz um balanço da campanha da Aptr até o momento e conta um pouco mais como têm sido as conversas com as secretarias de cultura do governo federal, que tem Regina Duarte à frente; da prefeitura, de responsabilidade de Adolfo Konder; do estado, gerida por Danielle Barros.

O quanto vocês acreditam que a mostra pode agregar à campanha “Aptr ao lado do trabalhador de teatro”?
Não temos muita ideia, mas a iniciativa é expandir para além da nossa bolha, como costumamos dizer. São atores, produtores que contribuíram para as doações, mas que estão trabalhando também em outros setores, outras frentes. Então, esta foi uma forma que encontramos de chegar, de atingir outro público. O pessoal que gosta de teatro, os amante das artes…

Bianca de Felippe integra o colegiado da Aptr Foto: Arquivo pessoal

E que avaliação vocês fazem dos números alcançados até aqui? São 650 beneficiados em pouco mais de um mês de campanha. É o que esperavam, surpreendeu…
É um excelente número. Com 650 beneficiados, significa que a campanha arrecadou R$ 325 mil. Para um mês, é ótimo. Mostra que a campanha é vitoriosa, mais do que financeiramente, mas também na questão do acolhimento. Os técnicos, atores que estão mais vulneráveis se sentem mais acolhidos, vendo que tem alguém pensando neles. Claro que o dinheiro é importante, para fazer uma compra de mercado, mas tem esta parte da união da classe.

Uma pergunta que pode ser óbvia, mas não custa fazer… Todos os artistas participantes da mostra são voluntários?
Sim, voluntários. E todas as doações até agora foram de pessoas físicas. No início, a gente pensou em conseguir apoio de empresas, principalmente aquelas que patrocinam teatro, mas ainda não conseguimos. E não desistimos, seguimos tentando (risos). A ideia, na verdade, era poder recarregar o cartão até os teatros reabrirem. Mas dependemos de recursos. Até por isso pensamos em apoio de empresas. Vamos ver como a mostra funciona. A gente na mídia, tendo mais espaço na imprensa, nossa possibilidade pode ser maior. Mas isso de recarregar os cartões é só uma ideia por enquanto (risos).

Você falou sobre as tentativas com empresas que ainda não avançaram. E com o poder público, como têm sido as conversas?
Com o estado, a gente conseguiu com a liberação do fundo, e foi feito o edital (Cultura Presente nas Redes). Mas é pouco. Estamos pleiteando um edital para que as produtoras sobrevivam neste período. Podemos viver mesmo com teatros fechados, com festivais online, por exemplo. Não sei! A cultura corresponde a quase 3% do PIB (Produto Interno Bruto) do Rio. Então, temos que pensar, sim, como vai ser esse retorno, caso demore mais, poderemos fazer em palco aberto… Mas como ainda não sabemos quando vai voltar, precisamos pensar também em ações que possibilitem a sobrevivência. Mas é tudo muito lento, como geralmente é no poder público. Temos um ótimo diálogo com a secretária Danielle, mas, efetivamente, não conseguimos avançar com a AG Rio (linha de crédito com juros reduzidos). A resposta é que não há dinheiro, que estão esperando aporte. Mas já foi dada a donos de restaurantes, para que honrem compromissos com funcionários. E queremos algo no mesmo modelo pra cultura, para as produtoras. Estamos pensando em várias coisas para a que cadeia produtiva não desmonte. Mas é difícil! Nossa campanha não resolve o problema da sobrevivência diária, mas no dia-a-dia, temos feito um trabalho relevante. Porque tem pessoas que não têm como se alimentar.

E vocês estão conversando também com as esferas municipal e federal?
A gente conversa com todo mundo, mas do município, não tivemos nenhum tipo de retorno efetivo, alguma ação. Tem a Lei do ISS (dedução de imposto sobre serviço) reabrindo para inscrição, mas, enfim, ainda não temos nenhuma ação efetiva de socorro da prefeitura para o setor. Tem os espaços culturais que precisam pagar funcionários, há projeto tramitando para estes equipamentos se manterem enquanto fechados, mas é tudo lento. Até virar dinheiro na conta, demora. E com o Federal é mais difícil. Estamos um pouco no limbo, nem (no Ministério da) Cidadania, nem Turismo. A Secretaria de Cultura está meio que sem saber como agir. Nem temos como falar. Estamos agindo propositivamente para as coisas acontecerem, mas tem uma burocracia emperrando as ações mais contundentes, como a liberação do Fundo Nacional de Cultura. Tem os 3% da Loteria, tem o dinheiro no fundo que poderíamos fazer edital emergencial…. Enfim, uma verba que pertence à cultura, que seria o nosso respiradouro (risos). E é necessário tirar os entraves para fazer acontecer, mas falta vontade. A cultura nunca teve o olhar deste governo.

Claro que é muito difícil falar em previsão, mas os poderes públicos já chegaram a falar com vocês alguma coisa sobre a reabertura de equipamentos culturais?
Não temos como prever. Há especulações de que volte gradativamente no segundo semestre. Mas não sabemos, não dá para marcar data. Não adianta! Tem que ser um dia de cada vez. E vamos fazer a nossa parte, porque não é brincadeira. Tem muita gente ficando doente, o sistema de saúde colapsando, e não podemos nos fechar, olhar só para o nosso umbigo. Precisamos colaborar com o Ministério da Saúde, obedecendo o distanciamento e, paralelamente, pensar em formas de sobreviver.

PROGRAMAÇÃO E-CENA – MOSTRA DE TEATRO ONLINE

Quando: Conteúdos inéditos disponibilizados nos fins de semana (sexta, sábado e domingo) de maio
Onde: Plataformas digitais da Aptr – Facebook (aqui), Instagram (aqui) e Youtube (aqui)

Terceiro Sinal

Textos e provocações de profissionais da cadeia produtiva do teatro – atores, criadores, técnicos, produtores – sobre as sensações (frio na barriga, coração palpitando, fome…) após o terceiro sinal.

Vídeos curtos com impressões pessoais para Instagram, Facebook e Youtube, postados um a cada dia, de sexta a domingo. Participarão desta ação: Alan Rocha, Amir Haddad, Armando Babaioff, Betty Gofman, Carla Faour, Fábio Enriquez, Flávio Tolezani e Natalia Gonsales, Guilherme Weber, Gustavo Gasparani, Helga Nemetik, Kelzy Ecard, Leandra Leal, Lilian Valeska, Luis Lobianco, Marcos Veras, Marta Paret, Renato Machado, Rodrigo Pandolfo, Sabrina Korgut, Susana Ribeiro, Tadeu Aguiar, Wanderley Gomes, etc.

Cenas de Casa

Interpretações de textos teatrais, poemas ou letras de música, enquanto o artista executa alguma atividade cotidiana de sua quarentena (lavar louça, fazer faxina, passar roupa, preparar a refeição…). A ideia é utilizar a casa como elemento de inspiração.

Monique Gardenberg sequenciou 11 vídeos curtos, dirigidos e produzidos por artistas de grande reconhecimento, entre eles: Luisa Arraes, Guel Arraes, Caio Blat, Deborah Evelyn, Caco Ciocler, Drica Moraes, Laila Garin, Luiz Henrique Nogueira, Elisa Pinheiro, Paulo Cesar Medeiros, Pablo Enriquez, Cia Barca dos Corações Partidos, Gustavo Gasparani, Suzana Ribeiro e Natasha Jascalevich.

Vídeo de 20 minutos para Youtube e Facebook, postado no lançamento do evento.

Aptr Convida

Bate-papo com Eduardo Barata. Um encontro teatral entre 3 ou 4 profissionais de relevância para a cena brasileira. A transmissão será ao vivo, de sexta a domingo, às 19h, via Instagram, Facebook e Youtube, pelos perfis oficiais da APTR.

Estão confirmadas para este final de semana:

Diogo Vilela, Ney Latorraca, Lucio Mauro Filho e Heloísa Périssé
Sábado / 09 de maio
Teatro e humor

Nicete Bruno, Eva Wilma e Léa Garcia
Domingo / 10 de maio
Mãetriarcado teatral

@To Musical

Live no Instagram, de até 1 hora, de artistas convidados. A transmissão acontecerá de sexta a domingo, às 21h, pelo @aptroficial. Os artistas apresentarão canções de sua preferência, conversando sobre espetáculos musicais e interagindo com o público.

Estão confirmados para este final de semana:

Stella Maria Rodrigues e Fabrício Negri
Sábado / 09 de maio

Thati Lopes e Evelyn Castro
Domingo / 10 de maio

Na Coxia

Live no Instagram, de até 1 hora, de artistas convidados, transmitida, de sexta a domingo, às 18h, pelo @aptroficial. Serão abordados temas transversais sobre cultura e o cotidiano na pandemia.

Estão confirmadas para este final de semana:

Mariana Lima
Sábado / 09 de maio

Patrícia Selonk
Domingo / 10 de maio

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