Autor Eduardo Hoffmann admite que contestações feitas em ‘Era Medeia’ servem para classe artística: ‘Auto-crítica’

Luiz Maurício Monteiro

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Eduardo e Isabelle interpretam um diretor abusivo e uma atriz que já foram casados

A partir de uma metalinguagem, o espetáculo “Era Medeia”, que estreia no Sesc Copacabana nessa quinta-feira (11) – só para convidados – faz críticas a diversos comportamentos presentes na sociedade e as direciona a todos os segmentos da sociedade. Inclusive à classe artística! Idealizador do projeto, o ator Eduardo Hoffmann, que além de atuar ainda assina direção e texto, deixa o corporativismo de lado ao ressaltar em entrevista ao RIO ENCENA que artistas não são o foco principal das críticas feitas na montagem, mas estão no contexto.

Em cena, Eduardo tem a companhia de Isabelle Nassar – a quem convidou para a peça em 2017, após trabalharem em outra montagem. Eles interpretam um diretor e uma atriz num ensaio aberto de “Medeia”, tragédia grega que mostra um mulher rompendo padrões sociais pré-estabelecidos. O encenador, porém, vai de encontro o que se passa na peça, ao se mostrar machista, repressor e abusivo. Um comportamento conflituoso, entre o que se prega e o que se faz, muito comum entre as pessoas, que vira alvo da proposta do espetáculo.

— Este é um projeto antigo. Escrevi em 2010 e desengavetei ano passado, colocando uma lente de aumento em algumas situações. Há bastante tempo, eu estava com a cabeça voltada para essa questão de que a gente aponta dedo, mas antes precisa fazer uma auto-reflexão. É mais difícil perceber os erros em nós mesmos do que apontar os dos outros — observa o ator, que antes de estrear no Sesc Copacabana com a peça, fez um ensaio aberto no Midrash Centro Cultural e um sessão em versão pocket no Festival Niterói em Cena.

Sobre ter um ensaio teatral como pano de fundo, Eduardo afirma que a escolha se deu apenas por sua identificação com este universo profissional. Mas admite que a ambientação o ajudou a colocar a classe artística no pacote de alvos das contestações do espetáculo.

— As críticas são para a sociedade em geral, não para uma parcela específica. Mas tem uma auto-crítica a nós como classe. Todo mundo tem que ver as suas ações. Não é uma crítica à classe, mas coloca a gente e a nossa parcela de culpa em questão — destaca.

Eduardo convidou Isabelle para o projeto em 2017 Fotos: Bruna Diacoyannis/Divulgação

Assim como este conflito ações x discurso, está representada no tal diretor uma outra crítica da montagem: a “espetacularização” da vida privada. Com sua postura abusiva, ele faz com que a relação com a atriz, que na verdade é sua ex-esposa, chame mais a atenção dos espectadores presentes do que o ensaio em si. Em tempos de uma proliferação intensa de reality shows, Eduardo usa estes personagens para propor uma reflexão sobre o porquê de o público de hoje muitas vezes se interessar mais pelos bastidores da criação do que pela própria criação.

— Essas coisas acontecem sem nosso controle. Mas o teatro não vai deixar de existir. Estamos num momento em que tudo é virtual, mas o teatro ainda tem caráter da presença, o que é fundamental — enfatiza o ator, concluindo a respeito da inspiração para construir o personagem do diretor abusivo: — Não me inspirei em ninguém especificamente. Coloco uma lente de aumento na situação, por que é difícil um diretor fazer o que ele faz na frente do público. Mas ele tem pinceladas de várias coisas que vi e ouvi. Estamos num momento em que pessoas que abusam do lugar de poder no teatro estão sendo reveladas. Então, não tem mais tantas situações assim, mas ainda se encontra.

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