‘Baquaqua’: Artivismo e resgate da história não contada

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Os leitores que acompanham esta coluna já me viram repetir diversas vezes o quanto eu acredito no Poder da Arte e fico muito feliz quando o Artivismo (arte + ativismo), como fala a filósofa Sueli Carneiro, é posto em cena trazendo educação. Este é o caso da peça online “Baquaqua” que reestreia na próxima sexta, 21, com sessões gratuitas seguidas por bate-papo até 11 de junho.

O monólogo conta em primeira pessoa a história do africano Mahommah G. Baquaqua, a partir da sua autobiografia “An interesting narrative. Biography of Mahommah G. Baquaqua”. Nele, o ator Wesley Cardozo narra as desventuras deste homem que foi sequestrado e escravizado no Brasil. Num mergulho histórico, vamos passeando pelo processo de desumanização de seu corpo e a sua luta pela liberdade. É uma obra pedagógica, porém emocionante, pois dá voz a um emudecido da história e permite que lhe escutemos.

O ponto alto está nas performances que pintam as experiências de Baquaqua. Fiquei nervosa e sem fôlego durante a cena do navio negreiro. Que desgraça! E quando entendemos que pessoas negras na América têm pelo menos um Baquaqua ancestral que atravessou o Atlântico no tumbeiro e sobreviveu deixando descendência, a história ganha dimensões mais profundas. Também gostei da sacada lírica ao contar a sua genealogia. Vi poesia ali!

Com uma trajetória impressionante, partindo do Benin, passando por Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Nova York, Haiti e Canadá, Baquaqua expôs as violências da escravidão e seus impactos na população negra e sociedade brasileira ao longo de séculos. É, portanto, uma peça atual no que se refere ao perigo da história única e às discussões raciais.

Wesley Cardozo é o protagonista do espetáculo Foto: Fernanda Dias/Divulgação

Saí impactada, pensando na experiência de me tornar coisa. Ser sequestrada e levada para o cárcere escravocrata. Baquaqua acaba por simbolizar 5 milhões de sequestrados africanos que desembarcaram com vida no Brasil. E essa é a mensagem de fundo da obra. Deixa o público tendo que lidar com isso.

Tecnicamente, explora as possibilidades do teatro virtual, com a câmera passeando e compondo a narrativa. Escolhas bem sucedidas da direção de Aramis David Correa trouxeram dinamicidade e novos ângulos, algo essencial para essa modalidade de apresentação. Vale a menção à trilha sonora recheada de musicalidade instrumental africana feita por Fábio Simões Soares (Fábio Mukanya), que nunca decepciona.

“Baquaqua” é uma peça que vale a pena assistir. Uma oportunidade de escutar este ancestral, sua luta e desventuras, e refletir a escravidão a partir de uma perspectiva afrocentrada.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

PUBLICIDADE
Scroll Up