Barraqueiras, mucamas, bandidos, malandros… Qual é a qualidade das representações negras na TV brasileira?

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 5 minutos

Qual é a qualidade das representações negras na indústria cultural?

Com esta provocação, começo a crítica de hoje na esteira das várias discussões fomentadas nas últimas semanas sobre a questão racial concorrendo com as trágicas notícias sobre a pandemia e o desgoverno. Achei interessante trazer para cá um debate que já faço nas minhas redes sociais, sobretudo no meu canal no YouTube (canal Aza Njeri), sobre a construção das personagens negras na indústria cultural.

Primeiro, chamo de indústria cultural, em diálogo com o filósofo Theodor Adorno, a indústria de entretenimento produtora de bens culturais de massa padronizados, fáceis, por vezes alienadores e apassivadores, feitos em ritmo industrial. São obras que em sua maioria estão descoladas do labor estético da arte, cultivam falsas necessidades psicológicas satisfeitas por algum produto capitalista, e que, sobretudo, criam representações populares dos diferentes aspectos do imaginário social.

O ponto nevrálgico desta discussão é justamente as representações populares fomentadas por essa indústria e o seu olhar paradigmático de construção dessas personagens. O que quero dizer é que a rede de entretenimento por ser majoritariamente (ou exclusivamente) construída e controlada por pessoas brancas costuma reproduzir representações arquetípicas limitantes e estanques de personagens não brancas. Essas, por sinal, ainda são herdeiras de um continuum histórico de dominação e violência de seus corpos por parte do mundo ocidental.

A perspectiva única (branca e eurocêntrica) de construção de personagens não hegemônicos – negros e indígenas – nos produtos de entretenimento, costuma ser permeada pelas amarras do racismo estrutural e estruturante das sociedades como a nossa. Além disso, há uma “tradição” racista de só representar os negros como escravos, bandidos, desvalidos e sofredores reforçando o que a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi chama de “perigo da história única”. Fora que essa construção narrativa foi muitíssimo utilizada pela Europa e suas elites coloniais não apenas como marca alienante e subalternizadora do negro, mas, sobretudo, como contraponto da civilidade e superioridade branca.

Para escurecer bastante esse tema, trago dados do Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa), vinculado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos/UERJ, que possui uma pesquisa sobre a raça e o gênero nas novelas da Rede Globo, entre os anos 1995 e 2014: quando se fala de protagonistas das novelas, 54% são mulheres brancas; 43% são homens brancos; 4% são mulheres não brancas; 1% são homens não brancos, sendo que nenhum desses foi considerado negro. Em relação ao cinema brasileiro, entre os anos de 1995 e 2018, em um universo de 240 filmes, 84% dos diretores, 71% dos roteiristas e 49% do elenco eram homens brancos; 21% das diretoras, 34% dos roteiristas e 34% das personagens eram mulheres brancas; 2% dos diretores, 3% dos roteiristas e 13% das personagens eram homens negros e no que tange as mulheres negras, elas são 4% das personagens e 0% das diretoras e roteiristas.

Quando focamos nas construções arquetípicas produzidas nesse cenário, temos a reprodução da Europa civilizada, berço da cultura, modernidade, evolução, enquanto África aparece como primitiva, mítica, ingênua, maligna, ignorante, infantilizada.

Mulheres negras, costumeiramente, são retratadas como barraqueiras e ignorantes – arquétipo da negona -, cheia de filhos, extremamente feias, exóticas ou fogosas; são empregadas domésticas, babás, governantas, mucamas e amas de leite ou integram algum núcleo de apoio à trama. Já os homens negros, corriqueiramente, performam o bandido, ladrão e traficante, pai alcoólatra, espancador ou malandro.

Outro dado interessante é que na história das novelas globais, 15 delas falam da temática da escravidão e todas partem da perspectiva única universalizante da narrativa luso-brasileira. Ou seja, além de reforçar exclusivamente esse aspecto da vasta história do Povo Negro, ainda enfatizam a uniperspectiva racista daqueles que sequestraram pessoas negras em África, submetendo-as à escravidão, enquanto genocidavam os povos originários da América.

Ruth de Souza e Sergio Cardoso (de rosto pintado) na novela “A Cabana do Pai Tomás” Foto: Reprodução/Internet

Não podemos nos esquecer da figura negra assimilada que surge na literatura com a obra “A cabana de Pai Tomás”, de Harriet Beecher Stowe, e vai incorporar o arquétipo de negro escravizado passivo, que nutre um amor (Síndrome de Estocolmo) pelo seu senhor. Aqui no Brasil, os conhecemos como “Pai João” e “Tio Barnabé”. Este, na gringa, chama-se “Uncle Remus” ou “Uncle Tom”. A Rede Globo exibiu a novela “A cabana de Pai Tomás” em 1969, quando tivemos Dona Ruth de Souza estreando como a primeira mulher negra em uma novela, enquanto seu parceiro de cena, Sérgio Cardoso, fazia blackface nos 204 capítulos da trama. O filme de Quentin Tarantino, “Django Livre” traz a personagem de Samuel L. Jackson encarnando essa representação de forma jocosa e crítica.

A representação de crianças negras nas novelas também chama atenção, já que em sua maioria são órfãs, sofredoras e pobres, contando sempre com a bondade de pessoas brancas – sobretudo mulheres – que, numa espécie de encarnação viva da bondade celestial, adotam-nas. E os idosos negros nem tenho muito o que falar, já que em sua maioria são deslocados da sabedoria da idade para performarem personagens abandonadas à própria sorte ou subalternas na trama.

Voltando à pergunta mote deste texto, qual a qualidade da representação das pessoas negras na indústria cultural? E agrego: quantas crianças negras saudáveis em todos os sentidos – família, saúde, inocência, casa – você já viu sendo representadas na TV brasileira? Por que quando temos algum negro bem sucedido na trama, ele tem algum problema de desvio de caráter, negação/vergonha da família preta e pobre ou ainda nega a sua cor? Por que as famílias pretas, poucas vezes representadas, são desestruturadas, com um pai espancador ou uma mãe ultrasofredora? Por que ainda é raro vermos personagens negros com núcleos saudáveis na trama? Por que personagens negros ainda trazem estereótipos racistas na sua construção?

Por que se insiste em retratar a história do negro no Brasil apenas pela perspectiva da escravidão sem sequer apontar para a luta abolicionista negra? E em novelas de imigração italiana, com a chegada dos imigrantes europeus, retira-se totalmente a localização histórica de um Brasil recém-saído da escravidão, com os negros sofrendo mais um bruto processo de gentrificação e deslocamento territorial. Por quê?

E sobre a ausência de diretores, roteiristas e outros negros tomadores de decisão na produção cultural, o quanto isto afeta na qualidade das representações negras no produto final? Isto é, não basta ter atores negros, é preciso que tenha ainda negros com o poder de decisão e veto na construção destas personagens. Se esta prática fosse comum, com certeza a qualidade das representações negras na indústria cultural brasileira seria de outra ordem. Mais do que isso, talvez esteja chegando a hora de pensarmos em uma própria indústria cultural preta. O mais próximo que temos disto é o Cultne, o maior acervo audiovisual de Cultura Afro-brasileira que, graças a pessoas como Dom Filó, guarda a memória das nossas produções e pensamentos.

No fim das contas, o principal nesta discussão antirracista que tomou as pautas deste país é se perguntar até que ponto somos agente de (des)construção do racismo. Parafraseando o líder afro-americano Kwame Ture – são apenas duas opções: ou você agrega com o problema ou com a solução. Façamos, portanto, uma autoanálise.

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Esta discussão não se esgota aqui. Quem ficou interessado em como desenvolvo o tema, indico um vídeo que fiz sobre Representação e Representatividade na Indústria Cultural (aqui) e o site (aqui) que tem bastante material que produzi sobre o assunto.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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