‘Basta olhar os dados científicos’, diz diretor do Midrash sobre opção por fazer festival online em vez de presencial; confira a programação completa

Luiz Maurício Monteiro

Tempo estimado de leitura: 5 minutos

A programação é composta por 24 peças, 11 leituras dramatizadas e dois recitais de poesia Fotos: Divulgação

Em julho do ano passado, quando ainda havia a determinação para que os teatros da cidade permanecessem fechados a fim de se evitar a propagação do coronavírus, o Midrash realizou o seu já tradicional festival em formato online. Agora, mesmo com a permissão da prefeitura vigorando desde setembro para que as salas recebam novamente o público, a direção do centro cultural, que pertence à Congregação Judaica do Brasil, opta por promover mais uma edição do evento de maneira 100% online, sem que os artistas sequer se apresentem nas dependências do espaço, dando preferência à transmissão das peças direto de suas respectivas casas. A medida, claro, é reflexo do atual momento da pandemia, que mesmo com a flexibilização na cultura e em demais setores, segue preocupando.

— Sempre tivemos muita clareza sobre o festival ocorrer de forma online. Eu sou muito realista… Mas, na verdade, basta olhar os dados científicos. Às vezes, parece que estamos num país onde as pessoas vivem o mundo da fantasia — critica o Rabino Nilton Bonder, diretor do Midrash, em entrevista ao RIO ENCENA.

Os dados aos quais se refere o rabino – que idealizou o festival há alguns anos após conhecer um evento semelhante na França – apontam, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, 47 mil casos confirmados e 27.591 óbitos por Covid-19. Só nesta sexta-feira (15), foram registrados mais de 3 mil infectados e 150 novas mortes, o que fez o estado chegar ao 10º dia seguido de alta na média móvel de vítimas fatais – segundo levantamento de um consórcio de veículos de imprensa (G1, O Globo, Extra, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e UOL).

Batido o martelo em favor de um festival inteiramente virtual, entrou em ação um time de curadores – formado por Clarice Niskier, Isio Ghelman, Julio Adrião, Natasha Corbelino e Renata Mizrahi – para definir a programação desta edição, que começa nesse domingo (17) e vai até 07 de fevereiro, com 24 peças, 11 leituras dramatizadas e dois recitais de poesia, que serão transmitidos ao vivo e gratuitamente pelo canal do Midrash no YouTube – confira a programação aqui.

Com as limitações impostas pelo formato online, a preferência da curadoria foi por produções mais enxutas, sem elencos numerosos ou grandes complexidades na estrutura – como no cenário, por exemplo. Fazer esta seleção, no entanto, não chegou a ser um desafio, já que por contar com salas muito pequenas, o Midrash já tem mesmo um histórico de optar por peças “menores” para apresentar.

No entanto, independentemente do tamanho dos espetáculos, todos os profissionais envolvidos nas peças selecionadas, desde atores e diretores a técnicos, receberão cachês por suas participações, mesmo com a programação totalmente gratuita – o que se tornou possível devido aos recursos conseguidos através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura do ISS. O rabino admite que os valores estão abaixo do que o centro cultural gostaria de pagar, mas dada a realidade de crise agravada pela pandemia, destaca o esforço coletivo para colaborar com a missão de manter o teatro pulsante na cidade – nem que seja virtualmente.

— … a vida tem que continuar, mesmo com as limitações. E para o Midrash, que tem o compromisso, a obrigação de promover a arte, o silencio é impensável — argumenta Nilton Bonder, que na entrevista abaixo falou um pouco mais sobre a programação do festival, opinou sobre a reabertura dos teatros na cidade e preferiu não estipular uma data para retomar as atividades presenciais do Midrash.

Em meio à pandemia, em algum momento, vocês pensaram em realizar o festival presencialmente ou sempre tiveram a certeza do online?
Sempre tivemos muita clareza sobre o festival ocorrer de forma online. Eu sou muito realista… Mas, na verdade, basta olhar os dados científicos. Às vezes, parece que estamos num país onde as pessoas vivem o mundo da fantasia. Mas quem tem praticidade, sabe que só temos condições de realizar um evento público se for algo muito restrito. Então, não tem sentido fazer um festival deste para 15 pessoas. Temos que ter o pé no chão. Toda a classe artística está sofrendo com a questão financeira, o governo privilegia outras indústrias que não a da cultura, e o teatro e outras manifestações culturais acabam sendo prejudicadas. É incongruente, totalmente impensável fazer uma coisa pública num momento em que não podemos nem ter encontros com nossa própria família.

Mas a única razão para fazer o festival online é somente a pandemia mesmo? Ou entra uma questão econômica?
É totalmente por conta da pandemia. Mas mesmo não tendo uma questão econômica, em julho nós fizemos com bilheteria, pois tínhamos uma preocupação com o teatro sofrendo muito. Então, cobrar ingresso seria uma maneira de renascer, mas o retorno não foi satisfatório, porque o teatro tem a concorrência do Netflix, da Internet, das redes sociais, que hoje ocupam muito espaço na agenda das pessoas. Então, agora decidimos fazer totalmente gratuito, oferecendo esta experiência para quem quiser.

E qual é a grande motivação para realizar um festival de teatro 100% online? Por que não esperar a pandemia passar?
Exatamente porque a vida tem que continuar, mesmo com as limitações. E para o Midrash, que tem o compromisso, a obrigação de promover a arte, o silencio é impensável. O que pode ser feito pela cultura neste momento é a razão deste festival existir. E uma das coisas que a gente experimentou com o festival de julho foi o desejo de alimentar nas pessoas a cultura do teatro, o entendimento de como ele não pode ser substituído por outra mídia. No início, o Midrash não tinha um foco no teatro, mas essa consciência foi aparecendo. Fomos olhando a importância do teatro, como área de resistência cultural e humana.

Ainda sobre a questão do teatro presencial, há um planejamento para o Midrash voltar a receber público?
Este ano de 2021 está muito comprometido. Principalmente, pelo tipo de resposta que a gente está tendo, porque a forma de controlar é a vacina, e tomara que sejamos surpreendidos, mas a informação até o momento é que em julho a gente ainda não tenha vacinação em grande alcance. Então tudo vai depender desta questão.

E como o senhor tem visto a retomada do teatro no Rio? O movimento está um pouco tímido ainda, mas algumas salas estão reabrindo.
Eu não diria que está abrindo demais, porque de todas as indústrias, o teatro tem sido a mais cuidadosa. Diminuiu o público de forma acentuada, adotou atitudes severas. Mas eu te digo, isto na minha gestão, como líder religioso, que igrejas e sinagogas estão abertas, com restrições, mas não acho que seja recomendado. Entendo a demanda econômica… Para os atores, entendo que alguns deles não conseguem conviver com esta realidade virtual… Alguns são mais sensíveis, eu compreendo, tem a questão econômica e o desejo, digamos, de manter vivo o teatro como forma de resistência. Mas, infelizmente, esse retorno tímido, como você disse, não atende o problema econômico do setor, é uma ação pequena que não vai proporcionar o retorno do setor do teatro à normalidade. Não é o que a gente vai fazer no festival, não é o que faço no espaço público pelo qual respondo, mas respeito. Só que o mais dramático de tudo, acho que é a falta de suporte do governo.

Voltando a falar sobre o festival, qual foi o critério para definir o perfil das peças que compõem a programação?
Utilizamos curadores que temos há anos, pedimos não só qualidade, claro, mas também peças que se adequassem ao momento. Não tem como apresentar uma peça com vários atores. Nosso espaço é tipo boutique, com salas pequenas, então não fazíamos teatro com oito, nove atores. A maioria era de monólogos, obras com esta estrutura. Então, de certa forma, migrar do palco para a tela ficou mais fácil, porque nunca tivemos espetáculos mais complexos, tanto em cenário como em elenco.

E todos os profissionais envolvidos estão recebendo cachê?
Todo mundo recendo cachê, menos do que gostaríamos, pois também fomos vítimas da famosa frase “está difícil para todo mundo”. Mas para poder fazer o festival gratuitamente, tivemos que criar condições com cifras menores do que todos mereceriam, então só entrou mesmo quem se sentiu à vontade para estas condições. Cada um teve que fazer esta reflexão.

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