Benjamim de Oliveira: minha reverência a este mestre que abriu caminhos para muitos que vieram depois

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

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No último 11 de junho, comemorou-se os 150 anos de Benjamim de Oliveira, conhecido como o primeiro palhaço negro do Brasil. Nascido Benjamin Chaves em Pará de Minas/MG, filho de mãe escrava – era mucama na casa grande – e pai capitão do mato – um capataz da fazenda que caçava negros fugidos. A proximidade de sua mãe com a casa-grande fez com que ele, em 1870, nascesse alforriado.

Com 12 anos, em 1882, fugiu de casa com a trupe do circo Sotero, onde atuou como trapezista e acrobata. Considerando que a escravidão foi oficialmente abolida em 1888, pode-se imaginar que o racismo e o sistema escravocrata viriam a tangenciar sua vida e carreira, fazendo com que sofresse as mais diversas violências e silenciamentos.

Depois de trabalhar em muitos circos e passar por várias cidades do país, é assistido pelo então presidente Marechal Floriano Peixoto em uma apresentação no circo Caçamba no Rio de Janeiro. A partir deste momento, sua carreira é visibilizada.

O multiartista Benjamim de Oliveira é criador do gênero circo-teatro no Brasil. Sua contribuição para esta arte foi imensa: com a obra “Viúva Alegre”, de Franz Lehar, por exemplo, montada pela primeira vez em português, inovou o nosso teatro abolindo o ponto – pessoa que ficava soprando as falas para os atores da coxia – para fazer apresentações em que todos tinham o texto decorado. Enquanto dramaturgo, escreveu diversas peças com reconhecido sucesso, entre as quais, “O Diabo e o Chico”, “Vingança Operária”, “Matutos na Cidade” e “A Noiva do Sargento”.

Benjamim de Oliveira foi o primeiro palhaço preto conhecido nacionalmente Foto: Reprodução/Internet

Em agosto de 1908, no Circo Spinelli, Benjamim inovou mais uma vez ao protagonizar o papel de Peri, numa peça inspirada no romance de José de Alencar. A apresentação foi filmada e lançada sob o nome “Os Guaranis”.

O artista foi um músico de lundus, chulas e modinhas. Em sua discografia constam quatro composições lançadas em 1910: Caipira Mineiro, As Comparações, O Baiano na Rocha e Se Fores ao Porto, estas duas últimas escritas com Mário Pinheiro.

Sobre a memória de Benjamim de Oliveira, falecido em 1954, há o livro “Circo Teatro: Benjamim de Oliveira e a Teatralidade Circense no Brasil” (2008,) da historiadora Ermínia Silva; em 2009 a escola de samba São Clemente apresentou no carnaval carioca o enredo “O Beijo moleque da São Clemente”, em sua homenagem; este ano foi a vez do Salgueiro com “O Rei Negro do Picadeiro”; há uma estátua do artista no Parque Bariri em sua cidade natal; em 2015 foi tema do espetáculo “Universo Redondo: Os Circos de Benjamim”, da Cia do Solo.

Nesta data de celebração e memória, a Confraria dos Palhaçxs da Baixada junto com a Confraria do Impossível lançaram a homenagem artística ao ancestral da palhaçaria brasileira. No vídeo temos vários artistas negros da palhaçaria parabenizando Benjamim pelos seus 150 ano. Bonito de ver. E eu deixo aqui o registro de memória. Uma reverência a este mestre que abriu caminhos para muitos que vieram depois.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.br.

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