Blackyva: ‘Eu compreendo alguém que aprendeu a atirar, antes mesmo de saber ler’

Blackyva*

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Qual é o superlativo de BOCA?

Eu não sei exatamente o que é estar em concordância e desconfio que vou levar uma mordida por ter sujado o chão da cozinha com uma substância tóxica e ter secado com um aspirador só para dar um efeito. Eu tomei uma porção de pílula e a vida originária em ressonância me foi mostrada. Tudo aqui lá poderia florescer, florescer de uma PRETURA jamais vista, jamais imaginada, uma PRETURA milagrosa, abundante de encantaria, onde o mais belo dos belos, onde a mais bela das belas reinaria em poder e glória infinita. Mas como florescer, se antes mesmo de chegarmos, tudo já estava extinto?

Eu compreendo alguém que aprendeu a atirar, antes mesmo de saber ler.

Periodicamente, nós nos questionamos “como chegamos até aqui?”. Confesso que gostaria de ter a virtude de entender tudo, mas tudo é mera arrogância. Os mais velhos me diriam que “é necessário ter paciência e um bocadinho de força”, porém caminhar equilibrando-se sobre os escombros do inimigo, que por tempos nos açoita, não tem sido uma tarefa fácil. Mil cavalos brancos me atravessam, me escarnecem da alma ao coração, e com eles a certeza de que um novo pacto é selado para o aniquilamento de qualquer força enigma “pretuberante”. Sangue, suor e ruínas fossilizando, engulo quase tudo, enquanto os planos massivos de terror-resistência-sacrifício confundem as fronteiras datadas entre liberdade-redenção-mártirio e fazem dessa boca faminta o meu exaurir, uma nascente de cadáveres que nos torna alvo-alvejado. É preciso um “contramundo” vívido de Fel e Alfa para nos conduzir e nos preparar para as próximas batalhas desta guerra pré-racional com fantasmas de outras épocas. Rasgue os versos imbuídos de amargo até que ele possa se volver palatável outra vez. Jogue água nas patas incendiadas e deixe que a máquina de lavar faça o restante. Esqueça o homem! Descubra a fórmula!

Blackyva é artista independente das áreas de teatro e música Foto: Bruna Toscano/Divulgação

O lado de fora cada vez mais longe, milhares de covas sem nome, existem frases que não possuem continuação. Fricções “confabulosas” sobre uma dança-doença. Eu escavo o lugar de um novo começo para que haja outras lógicas de habitação, um reflorestamento de uma PRETURA inextinguível no encontro dessas correntezas “impretuosas”, para que se ergam suntuosos Quilombos, para que se levantem exultantes Favelas. Nossos nomes não serão ditos daqui a 500 anos, por isso, com precisão miro o punhal no peito do mais santo dos homens, pois nele está o antídoto, pois dele vem o veneno, a desmultiplicação, a “desressureição”. A este homem, e seus descendentes, pertence o alicerce maléfico da profecia hegemônica.

Qual é o plural de BOCA?

Não era exatamente isso o que eu queria falar, mas eu também tentei engravidar do Neymar até entender o quão penoso e cansativo seria dar à luz. Quase caí no laço, mas Exu o desfez. O passarinheiro já tirou a pedra de tropeço do caminho. Perturbação indiscutível parir um potro na boca desse mundo, seria horrendo! Há coisas que nascem de outro lugar. Há coisas que nascem daqui. Ele tá dentro de mim, e eu o devoro, devoro até que ele seja responsabilizado por essa dívida incontestável, impagável. Que termine em mim mas não acabe comigo. Que termine em nós e desate, outros problemas e novas soluções.

Enquanto você está aí brincando de achar que é bom, eu tô aqui com essas pessoas na boca do mundo.

Que Exu não se demore a voltar.

*Colunista convidada

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