Com pandemia, stand-up comedy ganha mais espaço e divide igualmente programação com o ‘teatro tradicional’: ‘Boom na Internet ajudou’

Luiz Maurício Monteiro

Tempo estimado de leitura: 5 minutos

O stand-up representa quase 50% das atrações em cartaz no Rio neste fim de fevereiro (shutterstock.com)

O humorista Matheus MAD tem se apresentado com seu show de stand-up comedy “Rodízio de Humor” às quintas-feiras, a partir de 21h, no Bar Foglia, na Tijuca. Atualmente, ele está entre mesas e cadeiras, mas bem que poderia estar num palco do Rio de Janeiro, afinal, tem sido cada vez mais comum ver o subgênero da comédia romper as barreiras dos bares e da Internet – onde, praticamente, nasceu – para ocupar teatros outrora tomados majoritariamente apenas por espetáculos. omum ver o subgênero da comédia romper as barreiras dos bares e da Internet – onde, praticamente, nasceu – para ocupar teatros outrora tomados majoritariamente apenas por espetáculos. Neste fim de fevereiro, por exemplo, a programação teatral da capital fluminense está dividida de forma quase que equivalente. A pandemia explica muita coisa, afinal, em tempos de isolamento, atrações que dependem só de uma pessoa são a opção mais viável. Mas e depois que este período excepcional passar? Como será? O chamado “teatro tradicional” voltará a ser soberano? O RIO ENCENA foi ouvir os dois lados, que têm opiniões próximas, mas com algumas divergências.

Primeiramente, é preciso entender como está a programação do Rio nesta reta final de mês. Nos sites oficiais dos teatros que aderiram aos protocolos de segurança e decidiram reabrir, o total é de 14 atrações presenciais em cartaz ou previstas ainda para fevereiro, com uma divisão de quase 50% para cada lado: oito peças teatrais e seis stand-up, sendo dois festivais – confira a programação na nossa seção EM CARTAZ.

O próprio Matheus MAD é um exemplo de nome da nova geração do stand-up carioca que está sempre presente nos teatros. Ele – que em junho estará no Cândido Mendes, reaberto após a pandemia, para um festival de humor – lembra que o estilo solo de fazer comédia já vinha marcando presença nas salas, mas aponta a combinação pandemia mais Internet como razão para uma guinada.

— Com a pandemia, as pessoas ficaram mais tempo online, em redes sociais, YouTube… E o stand-up é uma arte que sempre usou muito a Internet. Foi uma marca do movimento ter explodido na Internet, com grandes nomes, como o Comédia em Pé, aqui mesmo no Rio. A procura aumentou aí — recorda o humorista, completando: — Com esse boom na Internet, a gente vai conseguir disputar nosso espaço nos teatros. Mas acho que já estava até disputando… No Shopping da Gávea, onde existem quatro teatros, todos eles tinham pelo menos um stand-up na programação durante a semana. E isso é importante para o movimento, para o público.

Ao falar dos teatros do Shopping da Gávea, Matheus cita salas que, de fato, já vinham abrindo suas portas para comediantes que têm como instrumentos de trabalho somente um microfone, um vasto repertório de anedotas e muita coragem para encarar sozinhos uma plateia que quer rir minutos a fio. O Teatro dos Grandes Atores, na Barra, e o Fashion Mall, em São Conrado, são outros casos.

No entanto, outras salas já cederam. No Teatro Riachuelo Rio, por exemplo, o palco que até então recebia apenas grandes musicais, já teve o comediante Yuri Marçal no início do mês e já aguarda outros dois, Rodrigo Marques e Thiago Ventura, para março.

— A procura pelo stand-up aumentou muito na Internet, e os donos de teatros perceberam isso. Porque dá audiência, dá público… — observa Matheus, pregando respeito mútuo e deixando de lado uma suposta rixa entre stand-up e teatro: — Acredito que não há uma briga. O stand-up exige tanta dedicação e estudo quanto o teatro tradicional. Um não tem mais valor do que o outro. Merecem o mesmo respeito. Cultura sempre é bom.

Já o ator e diretor Daniel Dias da Silva imagina que esta expansão do stand-up comedy nos palcos do Rio não deve ter muito fôlego depois que a maior parte da população for vacinada, e o teatro voltar “com a programação normal”.

— O contexto da pandemia parece ter contribuído para afastar o espectador tradicional do teatro. Além disso, historicamente, em momentos de crise, o humor torna-se válvula de escape da realidade para o público. Acho que, com o tempo, a tendência é que essa ocupação volte a se equilibrar, mas, para isso, precisamos de políticas públicas e uma visão curatorial mais cuidadosa e comprometida por parte dos gestores para garantir a retomada dos espaços pelas produções teatrais — ressalta.

Sobre o possível embate entre a comédia e seus subgêneros e o chamado “teatro tradicional”, Daniel acredita que, além da pandemia, a questão econômica também pesa. Além disto, ressalta que a disputa não vem de hoje e que a coexistência sempre foi possível.

— Levantar e manter um espetáculo teatral, por mais simples que seja, tem os custos que envolvem uma produção e nem sempre há garantia de retorno financeiro. O stand-up rompe essa lógica, com custo mínimo e, na maior parte das vezes, uma estrutura simples e um humor imediato, bastante atraente para o grande público. Esta combinação costuma se refletir na bilheteria, agradando tanto a produtores, quanto a gestores dos espaços – analisa Daniel, completando: — Mas desde os tempos de Chico Anysio, Jó Soares, Ary Toledo, Dercy Gonçalves ou José Vasconcelos temos convivido de forma mais ou menos equilibrada com essa realidade.

Os atores Nando Cunha (E), Alexandre Lino e Daniel Dias da Silva falaram sobre o tema (Divulgação)

Com o olhar de quem está muito ligado a comédia, o ator Nando Cunha segue linha semelhante. O intérprete do inesquecível Pescoço, da novela “Salve Jorge” (TV Globo, 2012) acredita que o stand-up tem seu espaço nos teatros, mas não vê esta ocupação e m larga escala virando uma tendência.

— O stand-up já tem o nicho dele. Não acredito que uma casa tradicional de teatro, por exemplo, vá abrir depois da pandemia. Depois, quando voltarmos ao normal, tudo voltará ao normal — enfatiza Nando, também pedindo respeito ao stand-up, mas destacando que esta pode ser uma porta de entrada para os chamados aventureiros: — Não acho que o stand-up seja uma arte menor. Mas existe gente que não é ator se fazendo passar por artista através do stand-up. São piadistas, youtubers que querem ser como pessoas do stand-up, mas nunca foram atores, nem nunca estudaram para isso.

Também íntimo da comédia, já que se apresentará no festival do Teatro Miguel Falabella com “Acabou o Pó” no próximo dia 28, Alexandre Lino pensa que o importante no momento é a retomada do setor cultural, tão abalado pela pandemia. Em vez de questionar se stand-up é ou não teatro, o ator e diretor minimiza o conflito e, assim como Matheus MAD, enaltece a cultura como um todo.

— Considero este movimento de retomada nobre e fundamental. Nossa atividade é a mais impactada, e estes artistas que estão se dispondo a voltar aos palcos e teatros são de uma nobreza ímpar. Colocar em questionamento se o stand-up é teatro é como questionar se o teatro digital também é. Pouco importa! O que importa é nossa força e coragem de continuar exercitando nosso ofício e indo de encontro ao que é mais importante: o público. Com certeza estes artistas não serão esquecidos.

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