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Cyda Moreno: Novembro negro. Mas por que ainda ‘Dia da consciência negra’?

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Cyda Moreno*
Tempo estimado de leitura: 2 minutos
Cyda Moreno é atriz, produtora cultural, professora e mestre em ensino de artes cênicas, doutoranda em história do teatro negro e criadora do site Cafuné na cena preta Foto: Arquivo pessoal

Estamos na pauta. Na verdade, a população negra nunca saiu da pauta. Não necessariamente das pautas que gostaríamos e deveríamos ocupar e ter destaque. Mas, não deixa de ser “estar na pauta” quando ocupamos, ainda, os  piores índices de desenvolvimento socioeconômico do país: fome, desemprego, extermínio, racismo,  segregação e todas as imbricações causadas pelo processo de exclusão e aniquilamento da comunidade afrodiaspórica neste país. Em 1955, a escritora negra Carolina Maria de Jesus,  autora do best seller mundialmente conhecido, “O Quarto de Despejo”, escreveu: “a pior coisa do mundo é a fome”.

Desde os remotos tempos do pós-abolição, a fome tem feito parte do cotidiano do povo negro. Vagando pelas ruas das metrópoles após aquele feito, agora “livres” e  entregues à própria sorte, os ex-escravizados continuaram  carregando o estigma da desumanização. E, uma vez estando longe da condição de humanizados, desnecessária seria  a acolhida do poder estatal para lhes garantir a mínima sobrevivência. Nesse contexto, a fome, com certeza, passou a ser uma constante na vida daquela população. Apartados da sua condição de dispositivo barato para enriquecimento dos seus senhores, que o destino então, se incumbisse do desfecho da vida de cada um daqueles indivíduos. Poderiam e deveriam estar alijados da sociedade vigente.

Estamos no século XXI. Há que se comemorar os nossos avanços. E foram muitos! Somos herdeiros de Zumbi, de Dandara, de Tereza de Benguela, de Luiza Mahin e de tantos outros. O sangue derramado; a luta e a resistência dos nossos antepassados e heróis no enfrentamento à escravidão; a força, garra e resistência dos movimentos negros, nada disso foi em vão. Só nas universidades públicas federais, espaço de saberes até bem pouco tempo restrito aos que detêm os privilégios neste país, herdeiros de uma sociedade escravocrata e não negra,  já somos, nos dias de  hoje, mais de 50% dos estudantes. Também temos destaque nas artes e nos esportes, o que nos tem permitido ultrapassar muitas barreiras sociais.

No entanto, ainda estamos muito distantes de quebrar bloqueios e fazer parte das estruturas de poder e decisão neste país. Os negros e afrodescendentes do Brasil representam 56% da  população total do país; porém, este fato não se reflete nas ocupações em espaços de poder e decisão. Somos, ainda, a maioria nas estatísticas de desemprego e de  informalidade. Nos centros urbanos, assistimos a centenas, milhares de pessoas passando fome no mais alto índice de miserabilidade: a grande maioria destas pessoas é negra. Nos abrigos, as crianças negras são a maioria. São pautas que fazem parte do cotidiano do povo negro há séculos. Exercitar a consciência negra se faz necessário ao longo do ano. Precisamos estar atentos ao passado para refletir o presente. Toda a sociedade brasileira precisa despertar a sua consciência, intensificar o debate e aferir o que de fato mantém grande parte da população negra em pautas tão divergentes e temáticas ainda tão desumanizadas, nas quais, realmente, não gostaríamos de estar. Consciência é para quem realmente almeja uma sociedade justa, igualitária e em paz.

*Colunista convidada do RIO ENCENA, Cyda Moreno (@moreno_cyda) é atriz, produtora cultural, professora e mestre em ensino de artes cênicas, doutoranda em história do teatro negro e criadora do site Cafuné na cena preta.


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