Déo Garcez: No Dia da Consciência Negra, um debate que deve ser prioridade

Déo Garcez*

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Refletir sobre o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, data do assassinato em 1695 de um dos nossos heróis negros e líder abolicionista, Zumbi dos Palmares, deve ser tarefa fundamental não somente para nossa população negra, mas também para toda a sociedade brasileira em todas as esferas. Este debate deve ser uma prioridade, se quisermos um Brasil verdadeiramente igualitário, justo, democrático, civilizado e, porque não dizer, social e economicamente possível para todos. A verdadeira abolição não aconteceu de fato. Como sabemos, as marcas deixadas pelo cruel sistema escravagista perduram até hoje aqui e no mundo.

Com relação à área cultural, nem se fala, ainda mais com a pandemia da Covid 19. Nela, claro, essa defasagem também se faz presente, resultado do racismo sistêmico, institucional e estrutural históricos.

Hoje o teatro brasileiro vive um momento especial com o chamado teatro negro contemporâneo, quando nós construtores desse teatro estamos produzindo, escrevendo e protagonizando nossos espetáculos, mesmo diante de tantos obstáculos, como o racismo, a pandemia, a falta de patrocínios. Espetáculos estes voltados para a temática afro-brasileira, recuperando a história que não foi contada pela historiografia oficial e se encontra ausente dos livros didáticos.

O ator, autor e produtor Déo Garcez é colunista convidado do Rio Encena Foto: Luca Machado/Divulgação

É o caso de “Luiz Gama – Uma Voz pela Liberdade”, há cinco anos em cartaz, com direção de Ricardo Torres e roteiro meu, onde vivo o próprio Luiz Gama, dividindo a cena com as atrizes Soraia Arnoni e Nivia Helen. Este espetáculo conta a história e a importância de Luiz Gama, ex-escravo, o maior advogado dos escravos do Brasil, Patrono da Abolição e Herói da Pátria, fazendo uma contextualização do Brasil do século XIX com o Brasil atual. Mesmo com esse perfil, nunca teve patrocínio algum, apesar de tanto tempo em cartaz, em teatros de várias partes do país, com casas sempre lotadas. Sigo em cartaz com ele em transmissão on-line pela plataforma Sympla/Teatro PetraGold.

Estou igualmente em cartaz on-line com outro espetáculo também sem patrocínio: “Anjo Negro”, de Nelson Rodrigues, peça-série-metragem, adaptação e direção de Antonio Quinet, em transmissão também pela plataforma Sympla. “Anjo Negro” aborda o racismo, o incesto, o feminicídio e o machismo de forma bastante polêmica e necessária de ser discutida. Fica aqui o meu convite para que assistam nossos trabalhos, uma forma de resistir em tempos sombrios como este em que vivemos. A arte não tem fronteiras. Mesmo em transmissão virtual ela tem o poder de tocar nossas mentes e corações nos despertando para um mundo melhor, ainda que precisando de grandes mudanças.

*Colunista convidado

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