Direitos iguais para todos não significa menos direitos para você

Luciana Kezen

Luciana Kezen

35 anos, bacharel em Artes Cênicas pela UNIRIO, licenciada em Letras pela Estácio de Sá, atriz, escritora, tradutora e ávida leitora nas horas vagas.

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

– Você não se sente ofendida quando acham que você é lésbica?

– Por que eu me sentiria ofendida por algo que não acho ofensivo? Não. Se você me chamar de corrupta, eu vou me sentir ofendida. Você me chamar de desonesta, vou me sentir ofendida.

Cresci com grandes nomes de artistas homossexuais nacional e internacionalmente reconhecidos. Não me lembro de ter pensado que Ney Matogrosso era hétero por um segundo da minha vida. Um cantor que sempre foi venerado na minha casa. Junto com Cazuza, Marina Lima, Elton John, Frank Sinatra e Freddie Mercury.

Se você diz não gostar da Cássia Eller pela opção sexual dela, eu sinto muito por você. Uma artista como nenhuma outra. Cássia tocava e cantava do rock ao samba, de Beatles a Piaf. Uma intérprete que cantava em português, inglês e francês. E com que repertório!

Que país somos, quando o pai d’A Grande Família brasileira, Marco Nanini, é homossexual, e ainda temos pessoas que gostam de fazer piadinhas sobre quem é o macho ou a fêmea da relação? “A homossexualidade é tão antiga quanto a própria humanidade”, dizia o escritor alemão Goethe (1749-1832), autor de ‘Fausto’, ‘Os sofrimentos do jovem Werther’ e tantas outras mais obras importantes.

Sentido horário: “Jornal” (esq. acima), “Flor de Dama”, “Balé”, “Narciso”, “Tebas” e “BR” Fotos: Divulgação

Como que eu poderia ignorar ou deixar de louvar o trabalho de Silvero Pereira em “Br Trans” ou em “Uma Flor de Dama”? Maravilhoso! Se você não assistiu por preconceito, azar o seu. Perdeu dois espetáculos mais do que incríveis. Você vai querer dizer para mim que “Kim – O amor é a tua cura”, interpretado por Lucilla Diaz não é lindo? Emocionante? Tem algo de errado com você.

Sou da linha de o que é bom, é bom. Por que ainda lemos Nelson Rodrigues e Dias Gomes? Porque é bom. Por que ainda lemos Oscar Wilde e Molière? Aristófanes e Eurípides? Porque é bom.

Nada me faria parar de gostar de ‘Devolva-me’ ou ‘Vambora’ da Adriana Calcanhotto. Ela é tão maravilhosa. O que me importa quem divide a cama com ela? Eu deveria me importar? Não aceito opinião de ninguém para com as pessoas que eu levo para cama, por que deveria eu me importar com quem os outros levam para cama? Não me afeta. Não machuca ninguém. Amor é amor.

De 2016 para cá, espero que você não tenha perdido espetáculos como “O hetéro” escrito e interpretado por Zé Wendell ou “A ira de Narciso” e “Tebas Land”, do dramaturgo franco-uruguaio Sergio Blanco, porque você é homofóbico. Por favor, não me diz que você deixou de assistir a “O Jornal – The Rolling Stone”, de Chris Urch, nem “Tom na Fazenda”, do canadense Michel Marc Bouchard, pelos assuntos de que tratavam. Não faz sentido ignorar a riqueza de “Balé Ralé” de Marcelino Freire ou da Ocupação Rio Diversidade, que inclusive foi indicado ao Prêmio Shell de Inovação.

Junho é o mês do Orgulho Gay. Orgulho, sim! Orgulho por lutar para ter direitos IGUAIS. Como assim, um casal que se ama não pode declarar público e ter os mesmo direitos que outros casais? Privilégio, é igreja não pagar imposto. Uma pessoa andar na rua com a roupa que quiser em público sem ser espancado, não é privilégio. É igualdade.Orgulho por direitos iguais.

Escrevo este texto consciente que é um ponto de vista de uma pessoa cis hétera, porque é. Sou. Cultura Indígena, Afro brasileira, Gay, Mambembe, Urbana, Agrária… Cultura. Uma não tem porque excluir a outra. Podemos não fazer parte de uma cultura e apreciá-la de toda forma.

Sei que não tem nada com a minha realidade de brasileira mista de libanês, espanhol, português e africano, mas eu sou fascinada pela cultura egípcia. É apropriação? Não, não digo que sou egípcia sem ser. Não é porque eu prefiro gato à cachorro que vou sair por aí matando os caninos que me aparecerem a frente. Não é por isso que vou fingir que eles não existem, ou que não são dignos do amor próximo.

Estamos no século XXI. Tá legal que ainda não temos carros voadores, mas ainda ter preconceito é barbárico. Direitos iguais para todos não significa menos direitos para você.

Um aceno de mão efusivo e até a próxima semana.
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para luciana.kezen@rioencena.com.

PUBLICIDADE
Scroll Up