Do matriarcado ao genocídio: duas faces da experiência negra em “Luiza Mahin… Eu ainda continuo aqui”

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Estamos em temporada de espetáculos pela Lei Aldir Blanc, e a safra está muito poderosa. Fico impressionada com o quanto o teatro é fluido e caminha entre as frestas, dirigindo-se para os quatro pontos da encruzilhada. E com o cenário pandêmico, se adaptou à nova realidade entregando espetáculos que agregam a performance teatral ao audiovisual. Tenho ficado muito feliz com a qualidade das obras agraciadas pela lei. Uma delas é “Luiza Mahin… Eu ainda continuo aqui”, que estreou na última semana no Teatro PetraGold, em formato online, com direção de Édio Nunes. A transmissão de estreia foi muito interessante, pois, ao vivo no palco italiano, o teatro disponibilizou três câmeras que nos permitiu perceber o espetáculo por três ângulos diferentes.

A peça é um drama que aponta para o genocídio da população negra a partir do relato das mães que perdem seus filhos. O texto de Márcia Santos é denso e pesado. Incômodo. Filosoficamente trata-se da discussão do que chamo de Estado de Maafa, isto é, o estado de desgraça coletiva experienciado pela população negra e que tem o genocídio como um dos principais agentes da desumanização. Os relatos doloridos expressam os traumas nos que ficam, e o matriarcado é o ponto de reflexão, já que mulheres mães negras são afrontosas ao sistema genocida, pois se negam a desumanização de seus filhos, mesmo após a morte dos mesmos. Nesse sentido, as interpretações de Márcia Santos, Taís Alves, Márcia do Valle e Jonathan Fontella trouxeram muita veracidade e emoção.

A perspectiva do matriarcado é acentuada com a personagem Luiza Mahin, numa interpretação sólida da veterana Cyda Moreno. A líder negra da Revolta dos Malês é a costura do texto. Sua trajetória revolucionária metaforiza a força das mulheres negras ao mesmo tempo que introduz a experiência da perda do filho, unindo-a ao fio narrativo dos relatos. Luis Gama, filho de Luiza Mahin, foi levado por seu pai português para ser vendido no porto, e Luiza nunca mais voltará a vê-lo, assim como as mães que enterraram seus filhos e filhas.

Há ainda a dimensão pedagógica, tanto a que discute a desgraça coletiva negra quanto a que apresenta a personagem Luiza Mahin, bastante apagada na história brasileira, de forma humanizada e dolorida, além de trazer Luís Gama e sua importância abolicionista. É o teatro utilizando seu Poder Pedagógico para (re)construir narrativas e questionar status quo.

O espetáculo aborda termos como matriarcado e genocídio de cidadãos pretos Foto: Divulgação

A peça bateu pra mim no lugar de mãe negra de um jovem negro. As estatísticas não são objetivas, e saí remexida nesse lugar. Aqueles relatos me trazem a lucidez do Estado de Maafa e a expressão do genocídio. É a ciclicidade que atrela as violências do passado às do futuro, como se mães negras fossem “Luizas Mahins” que tivessem que transformar dor em luta. Uma obra necessária para pensar os nossos tempos.

“Luiza Mahin… eu ainda continuo aqui” faz mais duas apresentações no canal da atriz Cyda Moreno no YouTube. Nos próximos dias 28 e 29, às 20h, com acesso liberado. Aproveito para agradecer à promoter e coordenadora de Marketing do espetáculo Naira Fernandes pela gentileza de sempre.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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