Em tempos de pandemia, a arte via streaming

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

A pandemia tem abalado nossas formas de compreender a vida, solidarizar-se com o outro e responsabilizar-se com o mundo. O cenário político nacional agrava ainda mais a nossa compreensão dos nossos tempos. Talvez, por isso, como uma espécie de fuga nutritiva ou alienante, estamos nos jogando no universo online como nunca fizemos.

Um fenômeno interessante dessa nova realidade tem sido as lives que pululam de todos os tipos e temas se espalhando pelos quatro cantos das plataformas de streaming com entrevistas, (mega) shows, saraus, aulas, palestras, performances… De repente, o entretenimento se ampliou no seu próprio conceito, e anônimos também passaram a discutir ao vivo o assunto que lhes convém. Ainda é cedo para verificarmos a direção e as consequências desse fenômeno, mas, sem dúvidas, há um impacto irreversível nas maneiras como se consome conteúdo daqui pra frente.

Com a arte não é diferente, e estamos resignificando o nosso consumo dela. As vídeo-performances, principalmente as que questionam nossa realidade política e pandêmica, vêm trazendo discussões relevantes. A Confraria do Impossível, nesse sentido, chama atenção com a série “Criações de Quarentena”, no IGTV, em que estão sendo postados trabalhos de diferentes gêneros e matéria artística, com destaque para as obras #04 com Mc Rayban e o seu criativo funk do corona; #05 com Daniel Vargas performando “Medo global” do atemporal Eduardo Galeano; #15, “Humanos” de Zéza, que me trouxe uma angústia que não sabia se emanava do ponta-cabeça avermelhado do rosto do artista, se das distorções imagéticas ou, ainda, do texto direto e reto tecendo a paisagem da nossa desumanização; #18 de Luan Almeida que impacta e emociona com “Saudade de gente”; e as duas performances de Reinaldo Jr., #21 “Mas é tranquilo preto andar de máscara?” e #26 “Crônica Política por PalhaKaus”, essa em colaboração com Dani Câmara, em que trazem à cena discussões sobre nossa sociedade na pandemia a partir de texto incisivo, imagens documentais e estética confrontadora.

Foto: Acervo Rio Encena

A quarentena também abriu espaço para o consumo do teatro online em sites gratuitos como Palavra Z e Espetáculos Online, onde dias atrás assisti com minha filha, – em mais uma tentativa de lidar com crianças 100% trancadas num apartamento -, ao infantil “Camaleão e as batatas mágicas”, de 2018, dirigido por Cacá Mourthé e Julia Stockler. Por ser um texto de Maria Clara Machado montado pela companhia O Tablado, minhas expectativas estavam altas e foram frustradas pelas arestas e lacunas da própria dramaturgia. Acredito que minha pequena tenha gostado, já que assistiu aos 40 minutos do espetáculo e ainda conversou com o cachorro Gaspar, interpretado por Igor Orlando, pela tela do computador.

Companhias e artistas também estão disponibilizando seus trabalhos para exibição e debate de forma gratuita em suas redes como a Okearô Teatro, que nos sábados de maio receberá uma convidada diferente para conversar sobre um espetáculo da companhia disponível pelo Youtube durante toda a semana anterior à conversa. O projeto começou no final de abril com a disponibilização de “Gineceu ou cenas de uma mulher qualquer”, esta semana a peça é “O que fazem as meninas quando desabrocham?” e na próxima será “Ela se vinga com um monólogo”, com debate sobre a obra comigo e a atriz Tatiana Henrique no sábado 18 de maio.

Na mesma toada estão acontecendo lives que discutem a cena como as do ator, dramaturgo e diretor Sidney Santiago Kwanzaa que rolaram no último fim de semana recebendo nomes como premiado diretor de cinema Joel Zito. Destaco também o projeto “Segunda com Griot” do Segunda Black, em que às segundas-feiras acontecem aulas-magnas de temática artística livre com figuras relevantes e mais velhas do cenário das artes negras. Na última segunda, o ator, gestor cultural e fundador da Cia. dos Comuns, Hilton Cobra, um grande djeli (ou griot, são sinônimos), participou com sua fala potente, afetuosa e preenchida de memória sobre a construção do Teatro Negro Carioca. Bonito de ver e aprender.

A multiartista e doutora ambientalista Verônica Bonfim, a nega luxenta, traz também o lindo projeto “Olhos D’África: o cuidado com a mãe terra” em que agrega em seu fazer artístico o conhecimento científico ambiental em conversas poéticas e musicadas sobre o cuidado com o planeta com mulheres-mães negras da cena artística. Uma discussão urgente permeada de poesia.

Eu poderia ficar aqui durante horas para falar sobre os vários materiais artísticos que estou acessando nessa quarentena, por isso algumas das próximas críticas serão com foco em obras que vocês também poderão acessar online, pois seguindo a máxima dita: “faça do limão, limonadas”, já que não podemos ir ao teatro, deixemos que ele venha até nós pelos caminhos das tecnologias.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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