Em tempos tão difíceis, ‘O incansável Dom Quixote’ é um bom programa para desanuviar

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Nos últimos dias, batemos 407 mil mortos, e eu estava precisando de poesia e arte. Sim, um pouco de catarse poética como uma pílula de alívio a este tempo tão difícil. Assim, cheguei à versão virtual do aclamado e longevo espetáculo “O incansável D. Quixote”, monólogo de Maksin Oliveira com direção de Reinaldo Dutra, disponível no projeto #sescemcasa do Sesc SP – assista aqui.

Meu contato com a literatura do espanhol Miguel de Cervantes (1567-1616) se deu primeiramente na adolescência com a coleção “Clássicos para gostar de ler”, em que obras da literatura universal eram apresentadas em formato palatável para o público infanto-juvenil. Lembro de me chocar, já nessa época, com a ingenuidade do cavaleiro errante. Entretanto, foi com a leitura mais atenta na graduação em Letras que pude perceber que D. Quixote é grandioso por conta da sua dimensão humana. Um texto escrito há séculos, ainda hoje, traz um despertar reflexivo sobre nossos sonhos, loucuras e certezas.

A história é conhecida e ganhou diversos formatos artísticos, onde o nobre cavaleiro, montado em seu cavalo Rocinante, sai pelo mundo acompanhado de seu escudeiro Sancho Pança e vive uma série de desventuras que desafiam sua coragem, foco e obstinação.

Maksin Oliveira em “O incansável Dom Quixote” Foto: João Julio Mello/Divulgação

A montagem é bem humorada e trabalha a nossa inventividade tal qual o romance e o fato de ser um monólogo aguça o nosso exercício do livre imaginar. Impossível não nos identificarmos com Sancho Pança numa experiência pandêmica e desgovernada como a nossa. Enfim, abriu essa janela em mim.

Interessante o prólogo que recebe o espectador explicando como funciona a experiência teatral on-line e, numa metalinguagem, filosofa sobre o teatro e a sua relação com o novo (nada) normal.

O trabalho de direção opta pela câmera-personagem que passeia pelo ambiente entregando novos ângulos. Gosto do trabalho que explora os detalhes no corpo de Quixote. Assim como a cena do carro que me fez sorrir.

Passear no universo quixotesco pode servir de válvula de escape. As peripécias e confusões apontam para a dimensão humana como metáforas dialogantes com as nossas experiências existenciais na contemporaneidade. É um bom programa para desanuviar.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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