Fazer teatro presencial na pandemia é algo sensato?

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Com a marca de 200 mil mortos por Covid e a naturalização desta desgraça pela nossa sociedade desgovernada, precisamos nos perguntar se faz sentido continuar com espetáculos presenciais. Claro que entendo a sobrevivência de fazedores de artes que precisam deste pão de cada dia para sobreviver, entretanto, será que nós, o público, temos a necessidade de nos fecharmos num ambiente com vários desconhecidos em nome da arte? Óbvio que público e espetáculo são intimamente ligados, mas quando olho o cenário que estamos vivendo, me parece bastante arriscado, mesmo com o distanciamento social.

Além disso, será que os espetáculos têm condições de testar seus profissionais a cada apresentação? E as condições dos camarins? Quem já esteve nas coxias da cidade sabe bem que a maioria tem pouca ventilação, e os espaços são pequenos. Será que as casas estão cumprindo rigorosamente os protocolos de segurança e higiene?

Eu ponderei muito antes de escrever estas linhas, porque estamos falando também de pessoas que precisam trabalhar, e a arte é seu único ganha pão. Ou seja, um impasse ético.

As salas que já reabriram têm trabalhado com capacidade de público reduzida Foto: Deposiphotos

Conversei com pessoas próximas das artes, tenho tentado fazer o exercício altruísta de não julgar os outros, contudo, nós passamos da terrível marca de 200 mil mortos. Estamos vendo pessoas agindo naturalmente, e mesmo que o espetáculo e a casa tomem cuidado, não conseguimos ter a garantia de que o espectador seja uma pessoa responsável e consciente. Esta é uma situação que precisa de responsabilidade coletiva para funcionar, diferentemente do que temos visto, principalmente, pelas redes sociais. Então, no fim das contas, estamos falando sobre (falta de) empatia e muita negociação de humanidade. E como esta coluna é dedicada ao teatro, vou me ater a este segmento ao criticar, porém, esta reflexão se estende às várias baladas e shows, já apelidados de #CovidFest.

A lógica do “vai morrer quem tem que morrer” é bastante cruel e desumanizadora, sintoma de uma sociedade alicerçada em valores individualistas e dominadores. Eu termino este texto desejando lucidez aos fazedores de arte, às casas de espetáculos e ao público sobre as suas responsabilidades na disseminação do vírus.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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