FestivaLBT: oportunidade de entrar em contato com discussões urgentes das mulheres LBT+

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

No último dia 28, começou o FestivaLBT, que vai até o 06 de setembro em celebração ao mês da visibilidade lésbica (agosto) e o mês da visibilidade bissexual (setembro). Eu sou uma mulher cis/hétero e acompanhar o festival diariamente tem sido uma maneira de me inteirar e sensibilizar sobre os atravessamentos das mulheres lésbicas em uma sociedade tão violenta como a nossa. Os debates acerca da sexualidade que acompanhei foram maduros e diversos, mostrando a importância dos olhares que estruturam projetos sobre esta temática. Me senti tão impactada que estou aguardando ansiosamente a segunda rodada de lives que acontecerá no domingo (06), com discussões acerca da representatividade lésbica; o racismo e preconceito; vivências não hegemônicas e a inserção das mulheres lésbicas no mundo pós-pandemia. Também estou atenta às master classes oferecidas durante esta semana sobre ritmos e dança, drinks e escrita criativa. Tudo online e para todes – acesse a programação aqui.

O evento inteiro foca em fomentar trabalhos artísticos, discussões intelectuais e informais que atravessam a comunidade LBT+, ou seja, pessoas lésbicas, bissexuais, transsexuais e +, e pelo que tenho visto, o engajamento na programação tem sido alto. No sábado (05), vai rolar uma festa virtual onde a turma da Festa Barcelona (RJ) e da Desculpa Qualquer Coisa (SP) vão se encontrar para agitar a noite. Estou animada porque será a primeira vez nessa pandemia que vou a uma festa (mesmo que virtual). E domingo o encerramento contará com as atrações musicais Mahmundi, com suas misturas poéticas de eletro, indi e lo-fi, e a performática Ekena com seu ritmo que une folk e mpb.

Acredito que a atenção dada às pluralidades de ser/estar no mundo está fazendo com que o festival surpreenda o público e se potencialize nas trocas estabelecidas. As convidadas são renomadas em suas áreas de atuação e engajadas na visibilidade da comunidade. Nomes como Erika Hilton (co-deputada), Duda Salabert (ONG Transveste), Briana Nasck (youtuber e gamer), Mônica Benício (Ativista pelos Direitos Humanos), Ana Claudino (Mídia Ninja), Alice Carvalho (Atriz e Roteirista) e Lan Lanh (Percussionista) têm trazido contribuições relevantes para o debate.

Destaco no evento os cineclubes, um momento em que o público assistiu curtas, longas e webséries sensíveis às questões LBT’s, além de debates descontraídos com as diretoras sobre a importância destas narrativas no audiovisual. O primeiro cineclube foi curado e debatido pela socióloga, pesquisadora e realizadora Raissa Imani, que também participou da live de abertura junto a Bruna Carvalho, trazendo uma perspectiva afrorreferenciada acerca das sexualidades, tema que aborda mais profundamente no livro “Tem saída”, disponível com desconto para o público do festival. Este cineclube trouxe os filmes “Vó, a senhora é Lésbica” de Larissa Lima e Bruna Fonseca, “Jéssika”, de Galba Gogoia e o recente sucesso queniano “Rafiki”, de Wanuri Kahiu.

Agosto é o mês da visibilidade lésbica e setembro, da visibilidade bissexual Foto: Deposiphotos

“Rafiki”, primeira obra queniana a ir pro Festival de Cannes, narra uma história de amor entre duas jovens. O filme trouxe um olhar estrangeiro para o debate e ao mesmo tempo revelou que as fronteiras entre o país africano e o Brasil são mais fluidas do que podemos imaginar. Ambos ainda vivem a lógica conservadora e homofóbica que violentam pessoas LGBTQIA+ diariamente, fruto de um legado imposto pela cultura cristã trazido pela colonização e que permanece até hoje personificado em processos repressores como a “cura gay”.

O festival on-line foi idealizado pela atriz e produtora Aliny Ulbricht em parceria com o Festival Universos, Canal das Bee, Canal Tá Entendida e Canal Tá Querida, e conta com apoio da rede Telecine.

Para mim, o festival está sendo uma oportunidade de entrar em contato com discussões tão urgentes que têm a humanidade das mulheres LBT+ como foco, refletindo sobre suas questões nesse território tão lesbo/transfóbico como o nosso. Não dá para esquecer que nosso país é o que mais mata pessoas trans no mundo. Então que venham mais iniciativas como estas para que, com diálogo e arte, a gente consiga melhorar a desgraça coletiva brasileira.

Para assistir ao que já rolou, clique aqui.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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