Governo autoritário, enchente de notícias falsas… ‘As Mariposas’, da Cia. Os Satyros, mostra ficção ou realidade?

Luciana Kezen

Luciana Kezen

35 anos, bacharel em Artes Cênicas pela UNIRIO, licenciada em Letras pela Estácio de Sá, atriz, escritora, tradutora e ávida leitora nas horas vagas.

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Da premiada e muito bem cultuada Cia. Os Satyros, está em cartaz em formato digital até 25 de Abril “As Mariposas”, com texto de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez. Esse espetáculo, que se passa 100 anos no futuro, conta com treze atores na tela, são eles: Diego Ribeiro, Eduardo Chagas, Fabio Penna, Gustavo Ferreira, Henrique Mello, Ivam Cabral, Ju Alonso, Julia Bobrow, Nicole Puzzi, Marcia Daylin, Mariana França, Sabrina Denobile e Silvio Eduardo.

Não é fácil falar mal de um trabalho, principalmente se esse trabalho é tão bom e interessante. Tenho que dizer que sou uma pessoa extremamente fraca para recriminar algo que assisto, inclusive, porque eu costumo me importar com o que assisto o suficiente para ir atrás de trabalhos que me atraem de uma forma ou de outra. Renomada não só no Brasil mas também em circuito internacional, a Cia. Os Satyros é sempre um excelente ponto de partida.

Bem diferente de tudo que tenho assistido online, “As Mariposas” me chamou atenção em inúmeros aspectos. Depois de assistir a esse espetáculo, ou talvez a esse ato fílmico, creio que o classificaria como uma ficção científica dramática, algo que por acaso se encaixa melhor do que eu esperava nessa mídia que toma conta das nossas vidas diariamente.

No começo, me senti um pouco confusa com tanta informação e exposição que estava acontecendo ao mesmo tempo junto com um número grande de personagens que surgiam na tela. Juro que senti uma frustração que não esperava
para acompanhar a estória. Ao final de tudo, eu não tinha, e ainda não tenho certeza, se só gostei ou se adorei o que assisti.

No entanto, tenho que dizer que sou uma pessoa que gosta de ser desafiada como plateia e esse espetáculo realmente fez isso comigo. Gosto do incômodo que senti enquanto assistia a todas as cenas e cenários se desenrolando à minha frente.

Fiquei com a impressão geral que “As Mariposas” daria um excelente filme. Acho que a direção de Rodolfo García Vázquez, que também assina iluminação e sonoplastia, super daria conta de fazer essa transposição.

“As Mariposas” da Cia. Os Satyros Foto: Annelize Tozzeto/Divulgação

Em 2121, um grande desastre ecológico destruiu o planeta. Não existem mais florestas e a maioria dos animais foi dizimada. A água é escassa, não chove há anos e o ar é muito pesado. Muitos tiveram que trocar o dia pela noite, as ruas estão desertas. Os aviões sumiram do ar; os carros, das ruas. Um ditador tomou o poder há anos e, desde então, seus 87 filhos vêm se revezando no poder. Porém, no Beco de Alma de Vera, um elegante ponto de encontro da cidade, e no escritório, que trabalha exportando algoritmos, o tempo não parou.

Foi a primeira vez que me deparei com o termo ‘design de aparência’ em uma ficha técnica e achei que fez todo sentido. Adriana Vaz fez um excelente trabalho com cada personagem que é exposto e, junto com Thiago Capella, a cenografia e direção de arte ganham formas inovadoras na tela.

Creio que por alguns momentos, eu acabei por perder um pouco do texto e das interpretações por um excesso de superposições de imagens, mas, talvez, esse excesso fosse exatamente o que era para ser. Como nossas vidas cheias de informações e opiniões excessivas por todos os lados, toda a sobreposição utilizada visualmente faz sentido no trabalho realizado.

E como estamos em um ponto na história onde a fauna, a flora e os seres humanos estão sendo dizimados em números que aumentam vertiginosamente, estamos caminhando para esse futuro distópico e sombrio descrito em “As Mariposas”. Por isto, não canso de escrever, por favor, fiquem em casa.

Um aperto de mão efusivo e até a próxima semana.
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para luciana.kezen@rioencena.com.

PUBLICIDADE
Scroll Up