Há mais de 10 anos no teatro infantil, produtor lança projeto de contação de histórias online e discorda de volta das crianças às plateias: ‘Como controla?’

Luiz Maurício Monteiro

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

Vinte contações de história prometem alegrar os pequenos no Mês das Crianças Fotos: Divulgação:

Se o novo coronavírus vai restringir e muito o leque de opções para os pequenos nesse Dia das Crianças – celebrado no feriado de segunda-feira (12) – o projeto “Que História Contar?” surge com a combinação ideal para animar a data especial para a criançada em tempos de pandemia: entretenimento educativo e a possibilidade de aprender e se divertir sem precisar sair de casa. Uma série de contação de histórias mesclando o clássico a questões contemporâneas numa plataforma digital – confira o serviço no fim da página – o trabalho tem coordenação da pedagoga Fernanda Faria e direção geral do produtor Bruno Mariozz, que diante de sua larga experiência com teatro infantil, acredita que o online segue neste momento sendo a melhor alternativa de lazer para os pequenos, em vez do teatro presencial.

Para isso, ele convidou para o novo projeto 22 artistas, entre atores, músicos e palhaços, como Clara Santhana, Fábio França, Milton Filho, Moira Braga,Vilma Melo e Wladimir Pinheiro, entre outros. Muitas vezes a partir de histórias longevas – exemplos de “Rapunzel”, dos Irmãos Grimm; “A pequena vendedora de fósforos”, de Hans Christian Andersen; o conto chinês “O pote vazio” – os vídeos previamente gravados – e seguidos de um bate-papo ou de uma oficina interativa – vão refletir junto às crianças sobre questões de diversidade de gênero, étnico-raciais e acessibilidade, entre outras.

O trabalho online voltado para o público mirim – e para os pais também, por quê não? – surgiu a partir de uma outra empreitada encabeçada por Bruno Mariozz na Internet em tempos de pandemia. Neste trajeto, o produtor viu despertar o desejo de levar aos pequenos de hoje algumas abordagens que ele gostaria de ter acessado na sua infância.

— A gente já vinha com esse movimento no projeto Identidades, entrevistando pessoas de diversas áreas de atuação e transversalidades, como indígenas, classe Lgbt, negritude… Numa das lives, a entrevistada foi a Fernanda Faria, que trabalha muito esse universo. E ali me despertou essa coisa de misturar essa coisa mais comercial dos clássicos e uma relação autoral, na qual houvesse estas personalidades que eu gostaria de ter ouvido na minha infância, falando de núcleos como como negros, Lgbt… — explica.

E desde o início, Bruno nunca teve dúvidas de que o ideal seria viabilizar o “Que História Contar?” virtualmente, mesmo que algumas produções dirigidas para a criançada já estejam sendo levadas aos palcos – caso do Teatro Clara Nunes, por exemplo. Para o idealizador da produtora da Palavra Z, que trabalha com o público infantil há 12 anos, ainda não é hora de levar os pequenos para plateias de teatro.

O produtor Bruno Mariozz e a pedagoga e contadora de histórias Fernanda Faria Fotos: Vinicius Piedade/Divulgação

— Sou completamente contra. As estatísticas estão aí mostrando que as crianças são as maiores transmissoras do vírus. E quem assume o risco ao levá-las ao teatro? Acho que esse risco é compartilhado, por que, na verdade, não tem ninguém se responsabilizando — critica Bruno, mencionando o comportamento peculiar das crianças no teatro, onde, normalmente, se fica sentado e calado — A criança não fica sentada na cadeira, às vezes. Ela quer levantar, quer fazer alguma coisa, é natural. Como se controla isso? Entrada de teatro infantil é uma loucura, com crianças correndo para lá e para cá, pulando, caindo e botando a mão no chão… Numa dessas, você pega o vírus.

Outra observação crítica de Bruno é a pouca oferta de conteúdo ao vivo e inédito para as crianças durante a pandemia.

— Eu não diria que há um abandono, mas também não vemos uma atenção, uma visibilidade. Existe um discurso político, de a criança ser o futuro, mas onde isso é implementado? — questiona o produtor, completando: — Uma coisa que me incomoda muito é a falta de atenção para o público infantil. Existe um buraco nesse sentido. Eu mesmo não vi nada de novo criado 100% online. Inclusive, a (produtora e atriz) Karen Accioly estamos com a possibilidade de um projeto que deve sair até o fim do ano.

SERVIÇO

Onde assistir: Plataforma Zoom
Período: 12/10 a 31/10 10h a 12h (o conteúdo ficará disponível até 12/12)
Elenco: Alexa Velásquez, Alexandre Moreno, Allex Miranda, Clara Santhana, Danielle Fritzen, Dayse Pozzato, Diego de Abreu, Fábio França, Fernanda Fari, Jorge Oliveira, Leandro Castilho, Lu Fogaça, Luan Oliveira, Matt Trindade, Milton Filho, Moira Braga, Patrícia Costa, Raquel Penner, Thaianne Moreira,Vilma Melo, Viviane Netto e Wladimir Pinheiro
Direção geral: Bruno Mariozz
Coordenação Pedagógica e Artística:Fernanda Faria
Classificação: Livre (recomendado para crianças a partir de 3 anos)
Entrada: R$ 15 (inteira); R$ 7,50 (para grupos acima de cinco pessoas); R$ 100 (passaporte promocional para quem adquirir a série completa com 20 contações de história)
Gênero: Contação de história
Bilheteria: sympla.com.br

SINOPSES

12/10 – “Minhas contas”, de Luiz Antonio, com Fernanda Faria.
A história tematiza a tolerância religiosa ao contar a história de uma amizade abalada pelo preconceito. O livro revela-se ainda uma bonita celebração da cultura africana, tão importante para a formação da identidade brasileira. Pedro e Nei são dois furacõezinhos inseparáveis. Mas a mãe de Pedro o proíbe de brincar com o amigo por causa dos fios de contas que ele usa.

13/10 – “O ganso cola tudo”, dos Irmãos Grimm, com Viviane Netto, (Cia Histórias Pra Boi Dormir).
A fantástica história do “Ganso cola tudo” faz uma viagem ao grandioso universo dos irmãos Grimm. Trata-se da história de um menino triste que encontra uma bruxa madrinha e tem nela a grande oportunidade de mudar sua vida. Com ajuda de música, adereços cênicos e muita imaginação, o público viaja nessa aventura junto com Alfredo, a bruxa e muitos personagens divertidos.

14/10 – “Melhor faz tranças do mundo”, de Luan Oliveira, com Jorge e Luan Oliveira.
A história de um menino que tem habilidade de fazer tranças, mas não é reconhecido. Triste com isso e apaixonado pelo número três, ele encontra uma solução que o deixa contente e pronto para se tornar o melhor faz tranças do mundo.

15/10 – “O menino Nito: então, homem chora ou não?”, de Sônia Rosa, com Wladimir Pinheiro.
Nito abria um berreiro por tudo e ninguém aguentava mais tanta choradeira. Um dia seu pai o chamou num canto e veio com aquele discurso: “Você é um rapazinho, já está na hora de parar de chorar à toa”. E tem mais: “homem que é homem não chora”. Essas palavras martelaram na cabeça de Nito.

16/10 – “O marido da Mãe-D’água”, de Câmara Cascudo, com Alexa Velásquez (O Que o Sabiá Conta).
A história de um pobre pescador que, ao conhecer a Mãe d’água e se casar com ela, acumula grande fortuna. Porém, ele não deve nunca maldizer o povo do mar.

17/10 – “O velho, o garoto e o burro”, de fábula de La Fontaine; “João Bobo”, de um conto popular que vem da oralidade; “A pequena vendedora de fósforos”, de Hans Christian Andersen; com Dayse Pozzato.
Numa noite de Natal, uma menina tenta vender fósforos para ajudar seu pai. Quando acende um dos fósforos para se aquecer, ela sonha com tudo o que nunca teve, como uma bela refeição, brinquedos e até a sua querida avó, que desce dos céus para ampará-la e cobri-la com amor.

18/10 – “Pé de Vento”, de Fátima Colin, com Clara Santhana e Leandro Castilho.
Pé de Vento é menino nascido no sertão da Paraíba. Muito curioso, gosta da liberdade do vento, pega carona num redemoinho viajando até chegar ao Rio de Janeiro no dia 27 de setembro. Descobre a tradição da distribuição de doces de São Cosme e São Damião, antes desconhecida por ele. Vive uma aventura repleta de novidades com as histórias desse dia, com cores, brincadeiras, sabores e músicas.

19/10 – “Oxum e seu mistério”, de Kiusam de Oliveira, com Lu Fogaça.
É uma das seis histórias do livro “Omo Obá – Histórias de princesas”. São histórias que aqui chegaram junto com os povos africanos. Apresenta as orixás ainda meninas, com suas características que podem empoderar outras garotas. Oxum, a vaidosa orixá das águas doces, tenta convencer Ogum a voltar para a cidade e ajudar as pessoas com suas ferramentas. Será que ela consegue?

20/10 – “Ombela, a origem das chuvas”, de Ondjaki e Rachel Caiano, com Thaianne Moreira.
Em Angola, Ombela é uma deusa que, ao chorar de tristeza, fez nascer a chuva. Mas para que ela não fizesse mal aos que vivem na terra, Ombela resolveu chorar apenas nos mares. Nem sempre é tempo de estar alegre e até os deuses têm seus dias ruins. O pai de Ombela ensina que chorar pode ser bom e que a alegria pode fazer surgir outro tipo de lágrima. Hora para sorrir e hora para chorar. Ombela aprende que há tempo para tudo e com a ajuda de seu pai, suas lágrimas doces e salgadas encontram outros lugares para ir todos os dias.

21/10 – “Oduduá e a briga pelos sete anéis”, de Kiusam de Oliveira, com Milton Filho.
Oduduá é uma princesa guerreira de beleza rústica e que não gosta de se enfeitar. Desde criança seus principais desejos eram ficar para sempre morando em sua cabaça e possuir sete anéis. Oduduá vivia com seu lindo príncipe Obatalá. O papel desempenhado por Oduduá dentro do enredo é muito forte, pois revela uma busca intensa da princesa por seu espaço, enquanto mulher na sua cabaça (casa).

22/10 – “Festa no céu”, de Ângela Lago, com Diego de Abreu.
Entre os bichos da floresta, espalhou-se a notícia de que haveria uma festa no céu. Porém, só foram convidados os animais que voavam. Com essa premissa, começa a saga do sapo para ir à festa no céu. O sapo surpreende a todos com sua perseverança e coragem, mostrando que podemos e precisamos sonhar. Utilizando objetos improváveis e percussão, a trajetória do herói sapo em busca da festa no céu narrada de forma lúdica.

23/10 – “Alafiá, a princesa guerreira”, de Sinara Rúbiam, com Patrícia Costa.
Sabemos que, na época da escravidão, vieram para o Brasil reinados africanos completos. Sociedades extremamente organizadas foram colocadas em navios sem saber para onde iriam. A história da Alafiá é a história que a própria história não conta. São histórias do povo negro que ninguém aprende, mas que causam um enorme impacto.

24/10 – “Pequena grande princesa”, com Danielle Fritzen.
E se um dia você descobrir um novo mundo? Grande! Onde possa tocar seus sonhos, realizar desejos, alcançar outros mundos. Uma borboleta pode te mostrar esse caminho. Esteja atento, forte! Essa pode ser sua sorte. Então, voe, voe alto. Acredite em você!

25/10 – “Escola que se fazia escola” inspirado no livro “Escola de chuva”, de James Rumford, com Fábio França.
É o primeiro dia de aula em Kelo, no Chade, na África. As crianças caminham pela estrada. “Vou ganhar um caderno?”, pergunta Tomás. “Vou ganhar um lápis? Vou aprender a ler como vocês?”. Mas quando ele e as outras crianças chegam à escola, não há sala de aula nem carteiras. Apenas uma professora. “A primeira lição é construir a nossa escola”, diz ela.

26/10 – “O Pote vazio”, conto tradicional chinês, com Matt Trindade.
Um dia, um imperador distribuiu sementes de flores às crianças do seu reino para que as cultivassem e lhe trouxessem o resultado de seu trabalho. Ao final de um ano, o menino Ping só conseguiu apresentar um pote vazio. Mas o que parecia um fracasso tornou-se um grande triunfo.

27/10 – “O pequeno príncipe das ruas”. Texto e interpretação de Allex Miranda.
Um homem de negócios está atrasado para mais uma reunião de trabalho muito importante. Ele faz um desvio na sua rota habitual atravessando por cidades completamente degradadas pelo abandono. No instante em que estava prestes a passar por uma das muitas cidades desprezadas, o seu carro sofre uma avaria e danifica as partes mecânica e eletrônica. Ao perceber que naquela localidade deserta não havia meios de comunicação, ele tenta encontrar uma saída para aquela inesperada situação, e descobre-se perdido dentro de uma cidade culturalmente abandonada.

28/10 – “Sinto o que sinto – A incrível história de Asta e Jaser”, de Lázaro Ramos, com Vilma Melo.
Mesmo para os adultos, lidar com os sentimentos nem sempre é fácil. Isso é o que Dan, personagem principal dessa história, percebe ao longo de seu dia, enfrentando diferentes situações que o fazem ter que encarar uma mistura bastante diversa de sentimentos. E à noite, já em casa e quase pronto para ir dormir, Dan ouve uma história muito especial de seu avô sobre seus ancestrais.

29/10 – “Ventanera – A cidade das flautas”, texto e interpretação de Moira Braga.
Ventaneira é uma cidade fantástica onde flautas voam amarradas em pipas coloridas e só o sopro dos ventos pode tocar estes instrumentos musicais. Um dia amanhece silencioso, sem ventos e sem música. Até que o menino Rudin, o único habitante de Ventaneira que não sabia nem fazer flautas, nem empinar pipas e que só consegue ver o que suas mãos podem alcançar, descobre como trazer a música e a alegria de volta à cidade.

30/10 – “Rapunzel”, adaptação de Leonardo Simões para o clássico dos Irmãos Grim, com Raquel Penner.
Nessa adaptação do conto dos Irmãos Grimm, quem conta a história é uma empregada doméstica, mesclando referências da fantasia com os seus afazeres, como forma de tornar mais leve sua rotina de trabalho. A adaptação, que recebeu diversos prêmios ao longo de 22 anos de trajetória, traz uma seleção de músicas do cancioneiro popular e outras canções originais.

31/10 – “Da minha janela”, de Otávio Junior, com Alexandre Moreno.
O narrador descreve cada coisa, pessoa e animal que vê da sua janela em uma favela do Rio de Janeiro. Ele vê cores, traços, gestos, objetos e bichos cujas vidas podem ser parecidas ou diferentes da sua, mas com certeza têm algo a ensinar. Com uma narrativa sensível e ilustrações cheias de vida e movimento, a história é um convite para olharmos para as vidas que nos cercam, mas, muitas vezes, passam despercebidas.

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