‘Lupita’ é uma peça sobre a morte, que exalta a vida

Luciana Kezen

Luciana Kezen

35 anos, bacharel em Artes Cênicas pela UNIRIO, licenciada em Letras pela Estácio de Sá, atriz, escritora, tradutora e ávida leitora nas horas vagas.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Logo de cara, eu já sabia que ia adorar essa peça e não é só porque um dos meus apelidos é “Lupita” (disponível no site do Oi Futuro, aqui). Mas que estética! Nossa… Fiquei encantada com tamanha riqueza de conteúdo e cena neste espetáculo. Gostaria muito de um dia poder assistir de perto.

A personagem do título, que mora no vilarejo de San Miguel del Corazón, é uma menina agitada de 10 anos. A peça se passa em um Dia dos Mortos, que reconta outro Dia dos Mortos. Quando Lupita descobre que seu Avô está prestes a dançar com Dona Muerte, a menina imagina uma mirabolante rota de fuga para escapar com seu Avô, que também é seu melhor amigo.

Muito diferente do nosso Dia dos Mortos aqui no Brasil, a cultura mexicana retratada na peça é de muita festa e alegria. Afinal, como Lupita fala em cena, no Dia dos Mortos “comemoramos a vida daqueles que amamos que já partiram.” Faz diferença, né? Comemorar e comiserar. E com esse lindo tom de comemoração é que vemos esse espetáculo se revelar no palco.

Um toque que foi dado no cenário que muito me chamou a atenção foi que o próprio palco parecia um altar de adoração mexicano. Lindíssimo. Velas, caveiras, flores, fotos… Tudo muito bem posicionado enfeitando ainda mais as cenas. Toda a disposição do cenário emoldurava os atores em cena como um quadro vivo. Lembrei-me de Frida Kahlo.

A riqueza das máscaras e figurinos é um show a parte. Os detalhes traçados para as personagens estão claros na confecção das máscaras e figurinos. Que trabalho delicado, expressivo! Tudo dentro de uma estética da cultura e cores mexicanas que não cansa por um minuto. Além das máscaras, a montagem conta com bonecos, objetos manipulados, projeções e luz negra, que interagem com a linguagem do teatro, da palhaçaria, da música e da
poesia.

“Lupita” utiliza máscaras e objetos em meio a uma estética mexicana Foto: Rodrigo Menezes/Divulgação

Desde o começo da peça, com um trio de mariachis cantando em espanhol até o a própria Dona Muerte dançando, vemos como nos diferenciamos tanto dos nossos irmãos latinos. Sempre me encanto com as caveiras ricamente pintadas. Podemos ver o trabalho de pesquisa feito explícito nos acessórios e adereços usados em cena.

Trabalhando em momentos de presente, passado, sonho, lembrança… incontáveis momentos diferenciados, a luz nos guia por toda aventura de Lupita. Uma luz limpa, que não vaza, só acolhe nossas emoções. E por um momento até me deixou bem angustiada. Adoro passar por essa orgia de emoções.

Flávia Lopes escreve e dirige essa linda estória. Suas composições visuais enchem os olhos de qualquer espectador. Seu texto encanta com lindas pérolas aqui e ali. “Lupita, você sabe que a morte faz parte da vida,” conversa o
Avô com a Neta.

‘Lupita’ é uma linda estória de amor. Se despedir de alguém nunca é fácil. Ajuda um pouco a lembrar que podemos manter a pessoa amada aqui, no coração. Embarcamos nessa aventura pelo mundo lúdico habitado por Lupita e
seu avô, onde dançar com a morte não parece tão ruim e definitivo, apenas uma nova aventura.

Um aceno de mão efusivo e até a próxima semana.
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para luciana.kezen@rioencena.com.

PUBLICIDADE
Scroll Up