‘Maravilhoso Escândalo’: Clarice, sempre Clarice…

Luciana Kezen

36 anos, bacharel em Artes Cênicas pela UNIRIO, licenciada em Letras pela Estácio de Sá, atriz, escritora, tradutora e ávida leitora nas horas vagas.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Enquanto a vacinação “caminha como a humanidade, com passos de formiga e sem vontade”, sigo dentro de casa procurando maneiras de não cair no desespero. Perdi mais um parente esta semana para a Covid-19. Procuro arte para me consolar, enquanto me sinto de mãos atadas diante da situação pandêmica do país.

Tive o prazer de entrar em contato com contos de Clarice Lispector ainda adolescente na escola e não me esqueço o quanto mais ainda passei a admirá-la ao descobrir sobre seu trabalho de tradução. Aos 15 anos, quando, como muitas adolescestes, estava eu tomando gosto por personagens fantásticos literários, fui tomada pela surpresa de descobrir que a cópia de “Entrevista com o Vampiro”, da Anne Rice, que estava lendo era traduzida por ninguém menos que Clarice Lispector. Genial! Aliás, com orgulho, mantenho o livro na prateleira até hoje, depois de muito lido.

“Maravilhoso Escândalo” é uma adaptação do romance “Água Viva”, escrito por Clarice em 1973, feita pelo diretor Gabriel Bulcão e pela professora de literatura Lúcia Soares. Na peça, uma solitária escritora e pintora se lança em infinitas reflexões sobre o tempo, a vida, os sonhos e visões, as flores, os estados da alma, a coragem e o medo – e, principalmente, a arte da criação, do saber usar as palavras num jogo de sons e silêncios que se combinam.

Tudo é revelado através do olhar desta pintora-narradora, que, assombrada por sua figura mais íntima, representada por uma jovem menina, cai em estado de graça em plena madrugada. Muitas reflexões surgem no processo de autoconhecimento da personagem durante um domingo em sua casa, aflorando, assim, uma mulher alçada pela maior e mais genuína potencialidade criadora, sem amarras sociais ou econômicas.

As atrizes Giovanna De Toni (E) e Dayanna Maia Foto: Divulgação

A partir deste novo formato online imposto a nós artistas de teatro pela pandemia do novo coronavírus, o diretor Gabriel Bulcão se sentiu instigado em dialogar com mais um elemento artístico: o audiovisual. A proposta artística sofre uma readequação, utilizando-se de meios cinematográficos para fugir da simples realização de um teatro filmado. O objetivo artístico é transformar todo o aparato audiovisual em um personagem, dialogando com o principal argumento do livro “Água Viva”: o fazer artístico.

Gabriel Bulcão dá conta da direção dessa montagem dando destaque ao final da apresentação, mostrando, poeticamente, cadeiras vazias na plateia. Muito bem colocado. Marcelo Marques assina figurino e cenário que nos remete a um ambiente aquático, as atrizes estão cercadas por um tule e, em seus figurinos, predominam variações de azul.

Em cena, a veterana Giovanna De Toni contracena com a jovem Dayanna Maia, realizando um duplo de pensamentos de Clarice que afloram em cena. As duas atrizes se completam em beleza e poesia, mesmo que, por vezes, as frases se percam um pouco pela torrente verbal em que são ditas. Teve um momento tocante de diálogo entre as duas em que me emocionei ao escutar:

“Olha para mim e me ama.”
“Não. Tu olhas para ti e te amas.”

Lindas!

Um aceno de mão efusivo e até a próxima semana.
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para luciana.kezen@rioencena.com.

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