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‘Não teria coragem de fazer se ele estivesse vivo’, admite Eduardo Martini sobre solo em homenagem a Clodovil que acaba de estrear no Rio

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Tempo estimado de leitura: 5 minutos

Eduardo Martini estreou o solo no Rio na última quinta, dia 20 Foto: Claudia Martini/Divulgação

De personalidade forte, sincero e sem filtro, Clodovil Hernandes (1937-2009) sempre foi do tipo que fala o que acha que tem que falar. Não à toa, colecionou inimizades. Mas o que será que ele diria a alguém que se propôs a apresenta um solo de teatro de quase uma hora de duração dedicado a destrinchar sua vida e carreira? Nunca saberemos. Mas o que Eduardo Martini, protagonista e idealizador da tal peça, sabe é que não levaria o projeto adiante caso o polêmico estilista, ator, apresentador, filantropo e político vivo fosse.

— Não sei se teria coragem de fazer o espetáculo se ele estivesse vivo. O Clodovil era um cara muito inteligente — admite o ator, apostando, porém, que a reação do homenageado poderia ser positiva: — Na minha intuição, acho que ele ficaria orgulhoso porque falo a verdade, sem defender, sem criticar.

A entrevista para o RIO ENCENA aconteceu por telefone, menos de 24h depois de o experiente ator, de 60 anos, ter se apresentado pela primeira no Rio – mais precisamente no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea – com o monólogo “Simplesmente Clô”, que estreou em novembro passado em São Paulo – para onde ele havia acabado de retornar quando atendeu a nossa reportagem.

Na conversa, Martini deixou clara a sua admiração por Clodovil, de quem se tornou amigo por ter ido a programas de TV do estilista e tê-lo recebido em apresentações no teatro. E foi este afeto que o ajudou a pensar o monólogo – escrito por Bruno Cavalcanti e dirigido por Viviane Alfano – o qual classifica como uma espécie de inventário que compartilha com o público suas criações na moda, programas que comandou na TV e o mandato como deputado federal – o mais votado do Brasil em 2006.

— Ele morreu e deixou carro, deixou roupas… E  apresentamos como se fosse um inventário mesmo. Falamos sobre ele sem julgar, se é bom ou ruim — enfatiza.

Sobre a estreia do espetáculo em palcos cariocas, Martini se diz surpreso com a presença do público – com todas as medidas adotadas contra a Covid-19, como distanciamento e máscaras.

— Fiquei chocado porque tivemos mais de 140 pessoas, sendo só nove convidadas. O público foi e pagou para assistir… Sinceramente, não achava que pudesse ter tanto interesse, mas teve — comemora.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Você já se referiu a este solo como um “inventário” da vida do Clodovil. Passam a limpo diversos aspectos e assuntos da vida dele. O que acha que ele acharia se assistisse ao espetáculo?
Primeiramente, eu não sei se teria coragem de fazer o espetáculo se ele estivesse vivo. O Clodovil era um cara muito inteligente. Mas, pela minha intuição, acho que ele ficaria orgulhoso porque falo a verdade, sem defender, sem criticar. Ele morreu e deixou carro, deixou roupas… E  apresentamos como se fosse um inventário mesmo. Falamos sobre ele sem julgar, se é bom ou ruim. E eu amei isso no texto do Bruno, porque não tem julgamento, o que deveríamos fazer na vida: não julgar. Então, acho que ele ia ficar feliz com a seriedade da homenagem.

Mas o espetáculo é carregado no drama? Vocês falam de solidão, por exemplo…
Nós não éramos próximos a ponto de ir um à casa do outro, mas éramos amigos. Eu sempre gostei muito do Clodovil, ele sempre me recebeu bem nos programas dele, me assistiu várias vezes no teatro. E eu, Eduardo, sempre achei ele muito sozinho, apesar de ser uma pessoa super conhecida. Mas não é um drama, falamos de solidão, dos programas de TV, da passagem pela política… Temos momentos mais sérios e momentos de humor também.

A sinopse diz que você conta no solo fatos da vida do Clodovil pouco conhecidos do grande público. Dá para adiantar algum?
Ontem (quinta, 20), no Rio, várias pessoas falaram que não sabiam da história do Ibrahim Sued (ex-colunista social do jornal O Globo que, nos anos 1980, deu a notícia infundada de que Clodovil seria portador da Aids). Os jovens disseram que não sabiam. Teve gente dizendo que se interessou pela pessoa dele e que ia procurar saber mais sobre. Eu, como disse, sempre gostei muito dele, éramos próximos, então não sei falar de ineditismo, de fatos que a maioria das pessoas sabe ou não. Mas o espetáculo gera curiosidade nas pessoas, que querem conhecer mais sobre esse homem incrível, que fez muita coisa na vida. Fez programa para mulher; fez um programa diário de três horas de duração; ficou no ar ao vivo por 32 minutos no Faustão (TV Globo), porque ia só participar de uma homenagem, mas o Ibope aumentou tanto, que ele foi ficando; foi o criador do prêt-a-porter (roupas fabricadas em série industrialmente) brasileiro numa época de crise, permitindo a mulher se vestir bem com roupa barata… O sonho dele era ter a Casa Clô, que abrigaria jovens de comunidades grávidas. Enfim, era um cara incrível.

O espetáculo não é um grande drama. Mas tem momentos em que o público fica mais impactado?
Nunca ninguém me perguntou isso (risos). Acho que tem uma hora que ele fala da moral brasileira, que é difícil lidar. Quando ele era jovem, viu seu pai transando com seu tio. O pai morreu sem saber que ele sabia. E nesse momento, eu sinto que pessoas ficam: “oh!”. Deixa eu lembrar o texto… Ele questiona: “que moral é essa? Com que moral posso falar do pai que me adotou? Com que moral misturam meu trabalho com minha cama? Por que isso? A vida vem pelo sexo”. Nessa hora, sinto que a plateia para para pensar. Aí, as pessoas começam a entender que ele era avançado para o tempo em que vivia. Falar de sexo há mais de 20 anos era complicado. Se a educação sexual nas escolas é vista até hoje como um absurdo, imagine falar abertamente sobre sexo naquela época?

E depois de se apresentar com o solo apenas em São Paulo, que impressão você teve do público carioca nesta primeira noite?
Fiquei chocado porque tivemos mais de 140 pessoas, sendo só nove convidadas. O público foi e pagou para assistir. E eu fiquei feliz! Só não sei se as pessoas foram esperando uma coisa mais para o lado da comédia, porque acho que o carioca está mais acostumado com comédia do que o paulista. E a risada não é melhor, nem pior, mas é diferente. Mas foi muito emocionante a forma como fui recebido. Sinceramente, não achava que pudesse ter tanto interesse, mas teve. As pessoas agradecendo por poderem estar voltando ao teatro, com toda segurança, é claro. Foram vários elogios, e eu não tenho ego, só tenho agradecimento por estar participando deste movimento de retorno, com as coisas melhorando aos poucos, a chegada da vacina e tal.

Você falou sobre participar da retomada do teatro presencial. E trabalho teatral online, fez algum?
Sim, fiz quatro apresentações de espetáculos meus. Mas não é uma crítica, é uma constatação: não é teatro. Não sabemos ainda qual é o nome, é bem legal, mas não é teatro. Desde novembro, tenho me apresentado presencialmente em São Paulo, e apesar das medidas necessárias de distanciamento, com dois metros de distância, uso de máscara, as portas abertas… Tem a história do terceiro sinal, do público ávido pelo início de um bom espetáculo… É diferente! E em São Paulo, sou eu mesmo que cuido da limpeza do teatro, do banheiro, do palco, higienizo a plateia… Faço questão que as pessoas saibam que estou preocupado com esses cuidados e que não é aglomeração.

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