‘O Espigão’ me convidou a mergulhar num drama familiar. E eu adorei

Luciana Kezen

Luciana Kezen

35 anos, bacharel em Artes Cênicas pela UNIRIO, licenciada em Letras pela Estácio de Sá, atriz, escritora, tradutora e ávida leitora nas horas vagas.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Para não deixar meus problemas mentais aumentarem ainda mais depois de um ano de pandemia, continuo indo atrás de novidades. No meu caso, sempre estou à procura de novas experiências teatrais. Nem sempre consigo assistir tudo o que meus amigos me indicam, mas me esforço para estar atenta ao máximo.

Seguindo uma tendência muito agradável de apresentações online e ao vivo, temos “O Espigão”, que nos traz um acerto de contas entre irmãos 12 anos depois de um acontecimento divisor de águas em suas histórias. A narrativa é sobre um irmão e uma irmã que se apaixonam pela mesma mulher. Após mais de uma década de mágoas, eles finalmente conversam, preenchendo lacunas e lançando novos olhares sobre a história.

Em cena, o ator Gabriel Morais recebe o público na sala virtual para visitar as memórias e as invenções de uma experiência dolorosa numa tentativa de reelaborar o que viveu. O projeto foi contemplado pelo Edital Retomada Cultural, por meio da Lei Aldir Blanc e tem direção de Natasha Corbelino, direção de arte de Júlia Deccache e iluminação de Livs Ataíde.

Escrito por Gabriel Morais a partir de uma oficina ministrada pelo dramaturgo português Jorge Louraço, “O Espigão” lança olhar para questões de gênero, família, homofobia e pressão heteronormativa: Como um jovem, de 18 anos, lida ao ver sua primeira namorada o trocar pela sua irmã mais nova? Como vencer a ferida sofrida no ego heterossexual? Com quem conversar? É permitido ao homem falar sobre suas dores, sobre os danos causados pela ordem heterossexual?

Gostei de ir me surpreendendo com os debates que estavam sendo propostos no espetáculo. Mas tendo em vista que lidamos com dois lados na mesma história de três pessoas, no ponto de vista de irmão e irmã, fiquei com vontade de saber qual o ponto de vista da terceira pessoa envolvida. Não falo isso como uma crítica negativa, escrevo apenas para mostrar como fiquei intrigada pelos acontecimentos descritos em cena. Poucas são as vezes que quero saber mais sobre a história que está sendo contada. E eu queria saber mais sobre essa trama.

Ao que Gabriel Morais e Mariah Miguel contam suas histórias, a direção da Natasha Corbelino dá conta do trabalho. Achei a vulnerabilidade com que o assunto é tratado em cena muito convidativa. Como será que eu reagiria se alguém me contasse esse acontecido em uma mesa de bar? No caminho para casa de metrô? Ter sido apresentada a esse triângulo amoroso de forma dramática fez com que eu questionasse minha sensibilidade em geral. Adorei isso.

Um aceno de mão efusivo e até a próxima semana.
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para luciana.kezen@rioencena.com.

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