O teatro na abolição

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 3 minutos
– com licença aos pretos velhos neste dia das almas, neste dia de abolição.
– um salve aos ancestrais que resistiram ao cativeiro!

A história única brasileira elegeu a princesa Isabel como símbolo do 13 de maio de 1888 figurando como uma espécie de promotora da liberdade negra. Tal construção parte da perspectiva eurocêntrica apagadora e marginalizadora das experiências de negros e negras quitandeiras, tipógrafos, capoeiras, caifases, padeiros e artistas que agiram com autonomia para a libertação dos escravos. Pessoas simples, que ficaram escondidas sob o véu do racismo estrutural e estruturante da História, mas que fizeram total diferença para a concretização do fenômeno.

Por isso, a crítica de hoje faz um artivismo (arte + ativismo) falando sobre o teatro brasileiro na luta abolicionista, a fim de agregar na discussão sobre o teatro enquanto agente movimentador, que desvela, traduz e questiona os problemas sociais para a própria sociedade. Como arte agregadora de outras em sua própria construção, o teatro acessa a cosmo-sensibilidade humana abrindo portas para reflexões ilimitadas sobre os dramas das nossas existências.

Como fonte de geração de renda, já no século XVII, companhias teatrais negras no Brasil organizavam-se para custear a compra de alforrias com a bilheteria dos espetáculos, por exemplo. Miriam Garcia Mendes em “O negro e o teatro brasileiro” aponta que os negros e mestiços “sustentaram o teatro colonial” com suas companhias teatrais profissionalizadas, porque até a chegada da corte portuguesa em 1808, as artes cênicas eram vistas como profissão subalterna e depreciada no brasil, sendo portanto, majoritariamente exercida por não brancos. A pesquisadora ainda chama a atenção para nomes como o ator Vitoriano, um “ex escravo, que em 1790, maravilhou o público presente aos festejos promovidos por um Toledo Rendon, de Cuiabá, com seu desempenho na peça ‘Tamerlão na Pérsia’” e a dupla de atores negros Caetano Lopes dos Santos e Maria Joaquina que “se notabilizaram nos papéis de Rei e Rainha de Congada, espetáculo apresentado no Rio de Janeiro, em 1811, com enorme sucesso”.

Com a chegada da corte ocorre uma mudança de perspectiva sobre esta arte, pois a esteira da coqueluche parisiense de entretenimento, o teatro passa a figurar glamour, consequentemente, o negro é retirado dos “theatros” brasileiros e o blackface passa a predominar.

Paralelamente a este teatro que começara a se construir no Brasil, surge uma outra vertente como parte do Movimento Negro Brasileiro do século XIX, que protagoniza luta antirracista no Movimento Abolicionista. Os teatros, então, emprestaram seus palcos para a realização de conferências e matinês abolicionistas, espetáculos, concertos e representações dramáticas, cujas rendas também eram revertidas para a compra de alforrias.

Convite para banquete promovido pelo Movimento Abolicionista Fotos: Reprodução/Internet
Cartaz da Sociedade Abolicionista anunciando o espetáculo "A Pupilla", um drama de três atos
O advogado Luis Gama (E), o dramaturgo Arthur da Rocha e o engenheiro André Rebouças

Figuras abolicionistas como o engenheiro André Rebouças e o advogado Luiz Gama, utilizaram o teatro como agente panfletário do pensamento anti-escravidão e pela reforma agrária promovendo soirées que misturavam espetáculos e discursos políticos, para onde convergiam negros de diferentes estirpes e também brancos membros da corte portuguesa e da elite que viam na abolição o caminho para o progresso social.

Vale ressaltar que a ligação estreita entre o jornalismo engajado, a atuação da Confederação Abolicionista e a adesão dos artistas teatrais à causa foram decisivas para a propagação do movimento popular abolicionista no Rio de Janeiro e em outras regiões do Brasil.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, o dramaturgo negro Arthur Rodrigues da Rocha compreendia os espetáculos como caminhos para pinturas sociais que denunciavam a condição do negro e encampavam o discurso abolicionista. Destaco os dramas “A Filha da Escrava” (1884) e “José” (1878) que expõem o racismo e a desumanização a partir de representações da escravidão como um crime social, desafiando estereótipos recorrentes de subalternização do negro.

Outro nome de destaque é o do ator abolicionista negro Francisco Correa Vasques, que na ocasião da abolição estava em temporada na capital encenando “O diabo na terra” e segundo, a imprensa, no segundo ato do espetáculo, no dia 17 de maio de 1888, incluiu um discurso emocionado sobre o evento, aplaudido de pé por todos os presentes.

Eu poderia ficar escrevendo páginas intermináveis de histórias de pessoas que fizeram a diferença para que a abolição acontecesse. O teatro, cujo poder é a transformação do mundo, esteve como agente e testemunha da nossa libertação física do cativeiro, e ainda hoje, caminha para a libertação das nossas consciências.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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