Para onde vamos?

Daniel Dias da Silva*

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

À medida que as notícias a respeito da pandemia da Covid-19 se tornaram mais frequentes e mais próximas, vimos nosso cotidiano ser invadido impiedosamente por uma nova realidade, que conhecíamos apenas como ficção, roteiro de filmes apocalípticos ou de embates entre super heróis e vilões caricatos. Ou que sabíamos vagamente, relatos de terras distantes, aparentemente sem grandes consequências para nossas vidas ilusoriamente imunes. Como Édipo diante do palácio de Tebas, com um punhado de perguntas sem respostas, assistimos atônitos de nossas janelas a um país inteiro ser mergulhado em sucessivas crises e tormentas, num desfile de narrativas e eventos que só reforçam o tom trágico da triste dramaturgia, enquanto um inflexível rei Creonte vocifera contra os deuses da Ciência, incitando o povo à sua guerra pessoal, condenando a própria família e o reino inteiro a um final sombrio.

Inevitavelmente, o setor cultural não tardou a sofrer as consequências deste momento crítico, justamente naquilo que o torna mais especial: a arte, em muitas de suas expressões, é resultado e se destina a uma experiência coletiva, interativa, presencial. De repente, o público se trancou em suas casas. Teatros, cinemas, museus, livrarias foram fechados. Temporadas, estreias, feiras, eventos, shows e concertos, cancelados. E – até então inimaginável – novelas e filmes tiveram suas produções interrompidas. De um dia para o outro, músicos, atores, técnicos, iluminadores, cantores, artistas circenses, artesãos, editores, pintores, escritores, camareiras, bilheteiros, produtores, figurinistas, cenógrafos, assessores de imprensa, maquiadores, fotógrafos, professores e toda uma imensa rede de profissionais que compõem esta cadeia produtiva foi mergulhada na incerteza. Não bastasse a incessante luta contra a falta de políticas públicas que enxerguem a importância e a relevância do setor criativo para a formação da identidade de um povo e para a economia, nos vimos às voltas com a onda conservadora que vem sufocando a Cultura, com o cerceamento de ideias e pensamentos, impondo controles e censuras sob o eufemismo de “filtros”, criminalizando o nosso ofício, promovendo ataques e ameaças, proibindo livros e espetáculos, fechando exposições… Como artistas, somos chamados (ou nos cobramos) a agir e reagir em uma nova frente de batalha, contra um novo inimigo invisível, divididos entre o horror e a missão heroica de ir até o fim, custe o que custar.

O ator e diretor Daniel Dias da Silva Foto: zero8onze Photo Cine

Sem data prevista para o fim das medidas de isolamento social e, exceto por alguns editais emergenciais, diante da falta de perspectiva de amparo e investimento do poder público na Cultura, o futuro se tornou uma grande interrogação no setor, um palco vazio. Em meio a tantas dúvidas, uma única certeza: voltaremos! Mas seremos os últimos a retomar a atividade e, certamente, com inúmeras restrições. Vem o nó na garganta, “o grito parado no ar” e aquele sentimento de urgência por respostas imediatas, a ansiedade e a cobrança. Como Estragon e Vladimir, ficamos à espera de Godot, que nunca chega e nos perguntamos: “para onde vamos?”. Não é fácil encontrar um ambiente favorável para a criação artística em um contexto tão conturbado, no olho do furacão. As janelas da Internet se tornaram refúgio e a oportunidade de manutenção de diálogo entre artistas e público, dando vazão à criatividade, com transmissões ao vivo (as famosas “lives”), leituras dramatizadas, entrevistas, cursos, exibições de espetáculos gravados… inúmeras propostas interessantes tem surgido e prometem render frutos. Mas tais ferramentas nem sempre abarcam toda cadeia de produção criativa e a tendência é que se esgotem.

Olhando para outros momentos de crise do passado, no entanto, vemos que a arte tem a incrível capacidade de se reinventar, absorvendo novas tecnologias e linguagens, tendo as dúvidas como companheiras de viagem, experimentando, arriscando-se para que, mais adiante, possamos ter uma percepção mais clara do que perdemos e do que conquistamos. Sem dúvida, esse processo passará, também, pela revisão dos modelos de produção, mais realistas e viáveis, adaptados a um novo momento econômico e social, apostando em espaços alternativos, microteatros, teatros de bairro ou de pequenas cidades, investindo em novas formas de relação e criação através da união de forças em coletivos e ocupações culturais, buscando reconquistar e se reconectar a distintos perfis de público, abraçando novas narrativas, linguagens, com o cruzamento de diferentes formas de expressão. A arte resiste, sempre! E quanto mais atacada, silenciada, mais forte tende a ser a sua reação. A melancolia de um palco vazio esconde em si infinitas possibilidades, depende de quem enxerga. Nada mais parecido com um espetáculo que chega ao fim do que o início de um novo. Tomo para mim (e compartilho) o ensinamento do poeta Thiago de Mello:

“Não, não tenho um caminho novo

O que tenho de novo

É o jeito de caminhar.

Aprendi

(o caminho me ensinou)

a caminhar cantando

como convém a mim

e aos que vão comigo.”

* Colunista convidado

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