Prêmio Aptr para Movimento Teatro Negro do Rio abre frente de diálogo e legitima agenda preta nas artes

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

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Na última semana a Aptr (Associação de Produtores de Teatro do Rio) divulgou os premiados da 14ª edição do Prêmio Aptr de Teatro em uma cerimônia apresentada pelos atores Maria Padilha e Miguel Falabela exibida no canal da associação no Youtube. O tom político marcou o evento, afinal a classe artística vem desde o início deste desgoverno sofrendo violentos ataques, ainda mais agravados com a pandemia. Vale ressaltar o papel essencial da Aptr no zelo pela sobrevivência dos fazedores de artes, neste período, com a campanha de auxílio aos artistas em que lhes oferece o Cartão Alimentação no valor de R$500,00.

O homenageado do prêmio foi o ator Ney Latorraca, importante figura para o teatro e televisão brasileiros. E Fernanda Montenegro apresentou a nova categoria Jovens Talentos, troféu em homenagem a jovem atriz falecida Manoela Pinto Guimarães, em que Rafael Teles, por “O despertar da primavera”, foi vencedor.

Foram quinze categorias com empate na Direção (Miwa Yanagizawa, por “Nastácia” e Rodrigo Portella, por “As Crianças”); Iluminação (Anna Turra, Camila Schmidt e Rogério Velloso, por “Merlin e Arthur: Um Sonho de Liberdade” e Renato Machado, por “3 Maneiras de Tocar no Assunto”) ; Direção de Movimento (Sueli Guerra, por “A Cor Púrpura – O Musical” e Valéria Monã, por “Oboró – Masculinidades Negras”?; Atriz Protagonista (Analu Prestes, por “As Crianças” e Letícia Soares, por “A Cor Púrpura – O Musical”), totalizando 20 laureados.

O Teatro Negro marcou presença tanto nas indicações quanto nos premiados, principalmente com a categoria Especial sendo entregue à Associação Preta de Teatro e Artes (APreTA), como representante do Movimento do Teatro Negro. Para a atriz, produtora e pesquisadora Sol Miranda, um dos nomes-chave para pensar o movimento teatral negro carioca, o prêmio é simbolicamente importante, porque quando a Aptr, uma relevante associação de produtores de teatro, premia uma outra associação que pensa a produção teatral exclusivamente negra, abre uma frente de diálogo e legitimação da agenda preta nas artes, entendendo a pertinência de artistes negres se organizarem para pautarem sua agência, sobretudo diante do racismo estrutural e estruturante que nos assola.

O ator Rodrigo França com o Prêmio Aptr da categoria Especial Foto: Reprodução/Facebook

A APreTa surge então como uma forma de fortalecer a realização artística de atores, técnicos e produtores negros, através do fomento direto dos associados que queiram impulsionar seus projetos, auxiliando-os na burocracia e na entrada destas produções no mercado das artes, ao mesmo tempo em que pauta uma agenda antirracista.

O ator Rodrigo França, que recebeu o prêmio em nome da APreTa, ratificou o quanto o Teatro Negro continua potente e vivo, exercendo o seu ofício resistentemente diante de uma estrutura hegemônica que impossibilita grandes patrocínios e invisibiliza o fazer artístico negro. Nesse momento de pandemia, temos diversas cias. de teatro negras se articulando para continuarem a sua atuação, seja por meio de editais recentes como o “em casa com o Sesc” que recebeu as obras “Buraquinhos” e “Contos Negreiros”, e no próximo domingo (12) trará a incrível “Traga-me a cabeça de Lima Barreto”; seja por meio de lives e ações em plataformas como Zoom e Google Meet, como tem feito a Confraria do Impossível, o Slam Negritude e o Projeto 111. Premiar o Movimento do Teatro Negro, portanto, chama atenção para a legitimação do caráter coletivo deste fazer teatral, que, como venho repetidamente falando nesta coluna, agrega em si os valores afro-civilizatórios de circularidade, cooperativismo, corporeidade, musicalidade, oralidade e, principalmente, força vital.

Para mim, o prêmio soa como um caminho de autodeterminação pelas artes negras que vem se construindo desde o tempo do Teatro Experimental do Negro, passando pelos vários Fóruns de Performances Negras e culmina no movimento teatral negro atual. As salas de espetáculos estão sempre lotadas de uma plateia majoritariamente negra que se movimenta para o nosso teatro, porque compreendeu nele uma das mais potentes formas de reumanização da população negra, ao recuperar e contar nossas histórias, fomentar nossos sonhos e criar pontes possíveis para um futuro mais digno e pleno. Celebremos!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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