Prêmio Shell, Inovação e Teatro Negro

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

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No último dia 16 de abril aconteceu de forma virtual a cerimônia do 32º Prêmio Shell para o Teatro Brasileiro que contemplou fazedores de arte do Rio de Janeiro nas categorias dramaturgia, direção, ator, atriz, iluminação, figurino, cenário, música e inovação. Esse é o prêmio mais tradicional do teatro nacional, criado em 1988 para, anualmente, contemplar os artistas e os espetáculos de melhor desempenho nas temporadas teatrais nesta cidade e em São Paulo.

Eu adoro ver premiações, glamour e tapetes vermelhos, mas me contentei em acompanhar pelo vídeo de aproximadamente 18 minutos o anúncio dos ganhadores feito pelos atores Vilma Melo e Leopoldo Pacheco.

Torcia pelo laureamento de “Oboró: Masculinidades Negras”, todos sabem, tem até vídeo fazendo a crítica no meu canal no Youtube, e fiquei muito feliz ao ver que Adalberto Neto levou a concha de Dramaturgia e Wanderley Gomes a de figurino. Também gostei de ver indicados os trabalhos de pessoas que admiro como Val Perré, Bèa, Dai Ramos e Fernando Philbert.

O que me deixou, entretanto, com sorriso nos lábios foi o prêmio para o Terreiro Contemporâneo, quilombo urbano reduto da arte negra e periférica que abriga diversas companhias de dança e teatro, além da anfitriã Companhia Rubens Barbot de Dança e que levou a categoria Inovação.

Neste Terreiro também fui acolhida: nele, lancei meu primeiro livro “Canto em lira quebrada” em 2016, frequentei sessões mensais do Cineclube Atlântico Negro, estreei como Interface Crítica do igualmente premiado na categoria inovação, Segunda Black, fiz o encerramento da II Mostra de Cinema Africano da UFRJ, conheci pessoas incríveis, participei das oficinas de literatura, aprendi com mestres da dança do Oeste Africano; vi, ouvi, senti e vivi momentos fruitivos que colocam esse espaço de estética afrofuturista em um lugar muito afetuoso na minha trajetória, mas sobretudo na resistência histórico-cultural afrodescendente do Rio de Janeiro.

(Divulgação)

Sem dúvidas, é merecido reconhecimento da prática ancestral de aquilombamento que permitiu que pessoas negras resistissem ao longo dos últimos séculos e que o Terreiro Contemporâneo aplica na própria síntese do seu existir. Estamos falando da mais alta tecnologia ancestral de união – um dos significados da palavra “quilombo” em língua banto -, que tem dado morada nos últimos anos às mais variadas formas de fazer artístico negro.

Claro que para nós, pessoas negras, o teatro negro sempre foi inovação, porque viver diante o racismo estrutural que nos tolhe é um ato político-poético de busca por caminhos novos para a nossa inegociável humanidade e o aquilombamento é ancestral e não novidade, mas o teatro brasileiro, que ainda é eurocentrado, tem em nossa prática algo novo, o que justifica a inovação. Então essa honraria dada nesta categoria soa em mim como ondas da memória que presentifica toda uma raiz, cujo tronco se metaforiza no Terreiro Contemporâneo.

Saúdo Rubens Barbot, Gatto Larsen e Luiz Monteiro por manterem esse espaço como um porto seguro para nós, e desejo que com esse prêmio surjam outras novas possibilidades de pensar o patrimônio negro do Teatro Brasileiro.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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