Relato: do baque à reinvenção em meio à pandemia

João Pedro Zabeti*

Tempo estimado de leitura: 4 minutos

Depois de dois meses intensivos de ensaios e produção do espetáculo “O Clássico Êxodo”, em meio a uma temporada de estreia que iria do dia 5 de março ao dia 29 de março de 2020, recebemos a notícia de paralisação do Sesc Copacabana como uma recomendação do ministério da saúde no dia 13 de março logo após o fim da apresentação.

Me chamo João Pedro Zabeti, sou uma bixa preta, ator, nascida e criada na Cohab de Realengo e membro do Coletivo Arame Farpado. Vindo desses lugares, o sentimento de gratificação por estar apresentando em um espaço como o Sesc Copacabana um espetáculo produzido em conjunto com o Coletivo Cafuné na Laje que fala sobre o transporte público do Rio de Janeiro e sobre a existência de uma lógica racista em sua idealização e, ainda, ter “quebrado essa cerca de arame farpado” com pessoas tão especiais também periféricas ou faveladas e majoritariamente negras como Laís Lage, Lidiane Oliveira, Peterson Oliveira e Sol Targino em cena e com toda a ficha técnica que conta com Phellipe Azevedo na direção, Wallace Lino na Dramaturgia, Paulo V. Lino na assistência de direção, Rodrigo Maré na direção musical e Juliana Longuinho na preparação corporal, JV Santos na direção do curta metragem e das projeções do espetáculo, Giulia Maria Reis na direção de arte, Luan Almeida na iluminação, Renata Alves como figurinista entre outras funções e pessoas que também estavam em êxtase por se tratar de uma temática que afeta diretamente a vida delas e é claro na expectativa de receber o cachê.

Toda a notícia do isolamento proposto pelo ministério da saúde veio dois dias antes de completarmos a metade das nossas apresentações, no dia 13/03, sexta-feira e isso, obviamente, deixou todas nós muito apreensivas não só em relação ao recebimento desse trabalho como de outros eventos já agendados. Estava muito cedo para os gestores nos darem uma posição.
Com todas essas questões passando pela cabeça da equipe, somadas ao fato de ninguém saber ao certo uma data para o fim da quarentena, a primeira semana em casa foi de muita angústia, mas sempre entendemos bem o motivo da medida protetiva e sempre alertamos pessoas próximas sobre essa necessidade como forma de evitar o avanço do coronavírus. Foi então que decidimos fazer uma reunião por vídeo-chamada para pensarmos ações do Coletivo durante a quarentena.

João Pedro Zabeti é ator e integrante do Coletivo Arame Farpado Foto: Theus Santos/Divulgação

Na reunião foi unânime a necessidade que o grupo tinha de continuar produzindo um conteúdo artístico que nossas avós, mães, tias e vizinhas conseguissem entender e se enxergar e agora nós teríamos tempo para explorar a ferramenta das redes sociais ao nosso favor. Pensamos em estruturar uma performance coletiva e via web com artistas parceiros de diferentes localidades do Rio de Janeiro e também de outros estados do Brasil que também tinham esse propósito em seus trabalhos e que assim como nós, precisaram interromper suas atividades artísticas e profissionais.

Assim nasce o “Canceladas” uma plataforma criada para o compartilhamento dos trabalhos de 26 artistas independentes, que compõem o elenco do que chamamos de Reality Show. Uma performance audiovisual criada por artistas negros, periféricos e favelados que através de tarefas e jogos virtuais interagem entre si e com o público, construindo coletivamente novas produções artísticas mediante a gravação de vídeos-performances com temas propostos pela produção a partir das pesquisas sobre memória, realidade e ficção desenvolvidas pelo grupo. Deste modo, percebemos que além de uma performance construída a partir da apropriação do aparato tecnológico, junto à diversidade dos corpos dos atores-criadores, fomentamos a possibilidade de um grande intercâmbio cultural pelo Brasil. Assumi, então, a direção junto com Phellipe Azevedo e também a apresentação do primeiro reality produzido com 27 câmeras de celular. Todo o conteúdo é distribuído nas redes sociais do grupo (Facebook, Instagram e Youtube).

Como funciona?

Existem quatro ambientes virtuais: O primeiro é a “Casa das Canceladas”, um grupo de Whatsapp em que todas as participantes interagem e discutem sobre diversos temas sociais e, é claro, sobre a chacota que é estar dentro de um reality. O segundo é o story do Instagram do Coletivo Arame Farpado (@a.farpado), que chamamos de “pay per view”, uma vez que os espectadores conseguem acompanhar quase que em tempo real as discussões levantadas dentro da “Casa das Canceladas”. O terceiro é o feed/IGTV do Instagram do Coletivo, onde é publicado um vídeo que resume tudo o que está acontecendo no grupo do Whatsapp, além dos episódios mais completos do reality. Nestes episódios são mostradas as provas, eliminações, discussões e reflexões resultantes desta nova forma de convívio.

O quarto e último ambiente são as lives (entrevistas ao vivo) com os artistas participantes do reality. O objetivo é, sobretudo, provocar debates em que os artistas possam apresentar suas falas a partir de suas produções e discutir de forma mais ampla sobre os temas sociais e políticos surgidos dentro da “Casa das Canceladas”. No final de cada vídeo publicado no feed temos ainda a reprodução de algum material artístico de alguma das participantes do reality.

Fazer o reality tem sido um trabalho diário tanto pras participantes quanto para a produção que conta ao todo com cerca de 40 pessoas trabalhando de forma independente e temos tido um ótimo feedback do público. Muitos não conheciam nosso trabalho no teatro e começaram a seguir o Instagram para acompanhar o reality. Nos dois primeiros dias de divulgação do reality já tínhamos mais de 500 seguidores a mais. Atualmente estamos com um financiamento coletivo que divulgamos sempre após cada vídeo para as pessoas depositarem quanto puderem. Ontem fui olhar a conta e tinha um total de zero reais então quem sabe falando aqui não gere mais engajamento? (risos) Além disso, estamos esperando por mais editais de fomento que foquem em produções periféricas, negras e faveladas durante a quarentena como forma de manter a produção artística pulsando ainda que fora dos palcos nesse período.

O reality tem sido descrito frequentemente pelo público e pelas participantes como uma fuga do isolamento através do humor e das reflexões sociais e com certeza é também uma espécie de cura para nós da produção de toda a tensão que esse isolamento nos trouxe. Uma das participantes, Tatiana Henrique, disse em uma live promovida pelo “Canceladas” que o reality tem levado saúde para a casa dela durante o isolamento e tem sido a mesma coisa aqui em casa. Como disse outro participante, Georgenes Isaac, “Eles tentam nos separar, mas nós estamos fazendo uma assembleia no fim do mundo”.

*Colunista convidado

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