“Sete Minutos”: um espetáculo sobre como NÃO se portar dentro de um teatro

Luciana Kezen

Luciana Kezen

35 anos, bacharel em Artes Cênicas pela UNIRIO, licenciada em Letras pela Estácio de Sá, atriz, escritora, tradutora e ávida leitora nas horas vagas.

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Esta semana me deparei com mais uma achado no YouTube. Por que não? Termino este primeiro mês de 2021 com uma peça de 2003, que bem poderia ser passada em escola. Claro que tenho muitas histórias engraçadas que me aconteceram dentro de um teatro. Como tenho algumas tristes também. Pode não parecer para alguns, mas o teatro é um lugar de trabalho.

Uma vez, enquanto recolhia os programas da peça deixados para traz nos acentos ou espalhados pelo chão, achei, na ultima fileira de cadeiras, um saquinho com 6 (seis) garrafinhas de whiskey vazias. E um copinho. Alguém fez uma festa particular naquele lugar.

Muito pior foi quando, entre sessões, descobrimos que três acentos tinham que ser inutilizados porque alguém vomitou na plateia e não avisou aos funcionários do teatro. Tivemos que agir bem rápido para não atrasar a próxima sessão.

Saiba que já tive que pedir a membros da plateia para, por favor, não carregar o celular na tomada do palco, afinal, a tomada não estava ali por acaso. Já me vi pedindo a plateia também para, por favor, não subir no palco para tirar foto. O cenário, apesar de lindo, não foi feito para que os espectadores se sentassem nele ou o manipulassem como bem entendessem.

Estas pessoas, muitas vezes, têm o costume até de ir ao teatro, mas não têm o costume de respeitar os outros. Pessoas que tossem, comem, bebem, conversam e, às vezes, lembram que tem um espetáculo acontecendo no palco…Há um decoro a se seguir. É pedido apenas o respeito que demonstramos quando vamos a casa de alguém.

Em “Sete Minutos”, texto de Antônio Fagundes e direção de Bibi Ferreira, o protagonista da peça tem que lidar com o maior monstro que todos que trabalham no teatro precisam lidar, muitas vezes até lutar contra: a plateia. Esta criatura de tantas formas, que enche as cadeiras do teatro, pode tranquilamente fazer um espetáculo ser uma dádiva ou uma catástrofe. Sim, porque a plateia é um elemento do qual nunca temos informação antes de começar uma peça.

Antonio Fagundes encabeça o elenco e assina o texto de “Sete Minutos” Foto: Reprodução/YouTube

“Sete Minutos” é uma peça que todas pessoas deveriam assistir, se elas vão ao teatro ou cinema ou shows de comédia… Sabe? Deveria ser algo básico. Uma verdadeira aula de como se comportar como plateia, e o que isso pode
causar em quem está no palco.

Começa a peça, e temos um cena um ator em meio a uma encenação de ‘Macbeth’. Sem conseguir falar sua fala por falta de decoro de membros da plateia, o ator sai de cena. Abandona a peça no meio. No camarim, o Ator ainda conversa com um Ator Mais Jovem, a Diretora do espetáculo e, eventualmente, chegam um Policial e dois Espectadores para receberem explicação do ocorrido.

Entre muitas citações de outras peças e referências a outros espetáculos, o texto de Fagundes nos passa toda a falta de respeito que vemos quando nos encontramos em ambientes públicos. Não devemos deixar de ter respeito com o
próximo, nem em uma fila de banco. E a revolta não está só em como se portar para assistir a algo. Nos é lembrado
também o quanto nós artistas (escritores, atores, diretores, figurinistas, iluminadores, cenógrafos…) temos que escutar que as pessoas acham o quanto é caro ir ao teatro. No camarim, o ator desabafa: “Os estádios de futebol estão cheios de gente que nunca foi ao teatro. Os bares, as filas de loteria esportiva, os bingos. Tudo isso custa caro. Mas 80% do público diz que só o teatro que está caro. Porque não tem interesse”.

Essa é a verdade, não é, Fagundes? As pessoas não têm interesse. Incentivo à cultura não é um tópico que costuma estar presente nos planos políticos. É sempre dito como artigo de luxo. Como algo não essencial. Mas é! E é essencial para crescemos como seres pensantes. Para sermos criaturas críticas.

Mal posso esperar para não chegar atrasada em uma peça de teatro outra vez!

Um aceno de mão efusivo e até a próxima semana.
Dúvidas, críticas e sugestões, envie para luciana.kezen@rioencena.com.

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