Sobre desumanização e processos de escravidão, ‘Nave mãe’ acerta na mensagem que deixa

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

“Nave mãe” é um cineteatro cujo texto impacta. Basicamente, fala sobre desumanização e processos de escravidão, a partir da experiência de Guará (Allan Pellegrino), um homem de ascendência indígena que deixa a sua cidade natal atraído por uma oferta de trabalho. Lá, depara-se com um ambiente hostil que desperta reflexões.

As relações de trabalho são a tônica do monólogo. Saí pensando no quanto vivemos uma neoescravidão que vai desde a extinção dos direitos trabalhistas, passa pelo empreendedorismo por sobrevivência e termina na uberização. Nesse sentido, chama a atenção a metáfora da “facção”, que nos aponta tanto para a facção fabril – galpões de confecção de vestuário terceirizados por grandes marcas de roupa -, quanto para facção criminosa. E quando se trata das notícias sobre esse modelo de emprego, pululam violações aos direitos humanos e condicionamentos análogos à escravidão, sobretudo de imigrante latino-americanos. Tal imagética é aprofundada quando sabemos que vestuário confeccionado é o jeans, como se também simbolizasse o sistema ocidental capitalista do século XX.

As metáforas dissonantes auxiliam na formulação de um ambiente de nervosismo e opressão. Um aplauso para a construção cênica de “farol de carro acende todas as manhãs”, que agregou elementos sinestésicos e de campos semânticos tão distintos, que incomodam e, ao mesmo tempo, amarram toda a obra.

O bom trabalho de direção de Joelson Gusson e Alan Pellegrino atrela a performance teatral com experimentos visuais e explora novos ângulos para a cena, além de instigar nas sobreposições de imagens. Outro ponto alto é a entrada do documental na cena. Talvez em palco italiano no formato presencial, seria exibido em um telão, mas a escolha por introduzi-lo em formato de audiovisual trouxe ainda mais hibridismo artístico para a obra.

Alan Pellegrino é o protagonista do solo online Foto: Joelson Gusson/Divulgação

As falas fortes esfregam em nossas caras os abismos da humanidade. Difícil não relacionar com casos como o de Madalena Giordano, que ano passado (2020) foi libertada após viver 38 anos em condições análogas à escravidão, servindo a uma família de classe média alta de Minas Gerais; ou das notícias de bilhetes de socorro dentro de produtos chineses feito por pessoas forçadas a trabalhar enquanto cumprem penas. Ou ainda pensar nas crianças e suas famílias que, diante da pandemia, retornam ao mapa da fome e pauperização, se vendo obrigadas a deixar de lado sua vida infantil para ingressar no mercado de trabalho para ajudar em casa. São muitos os caminhos para a escravidão. Essa é uma das mensagens que ficam.

Nave Mãe está em cartaz até 15/05, gratuitamente, no Youtube. É uma peça curta, um pouco mais de 30 minutos, o que ajuda muito quando se trata do formato online.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

Atualização: após a publicação deste texto, a temporada do espetáculo foi estendida até 15/05. Inicialmente, estava informado aqui que a temporada acabava em 29/04. Já atualizamos a informação.

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