Sobre o cineteatro ‘Moléstia’, saí me cobrando mais atenção com as pessoas adultas ao redor dos meus filhos

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Está em temporada o impactante cineteatro “Moléstia”, com dramaturgia de Herton Gustavo Gratto. A direção de Marcéu Pierrotti chama a atenção ao incorporar diferentes ângulos da cena explorando recursos audiovisuais, trazendo dinâmica e tensão ao narrado. Sim, tensão é a energia da peça que conta a tragédia instaurada quando o casal Breno e Mabel (Felipe Dutra e Camila Moreira) hospeda o amigo de longa data, Cadu (Ciro Sales), desestabilizando a desgastada relação amorosa e entrando num jogo dúbio de atração e amizade. A situação é agravada quando eles descobrem que seu filho autista, Thiago, foi abusado sexualmente e os indícios apontam para Cadu. Só essa sinopse traz uma série de gatilhos e, definitivamente, não aconselho que a peça seja assistida por pessoas que tenham alguma questão com o tema.

Assim, acompanhamos dois tempos que se entremeiam na história: o anterior à violência, onde observamos a intimidade do casal com o amigo e a relação deste com a criança. Também vemos um casal cansado, desanimado e impactado pela chegada do outro. O segundo tempo é posterior à descoberta da agressão onde se desenrola uma agressiva trama de acusações disparando um jogo de manipulação e ódio.

Eu sou mãe de dois e a dimensão da tragédia encenada bateu muito forte em mim. Saí me cobrando mais atenção com as pessoas adultas ao redor dos meus filhos e me perguntando o quanto a escola pode ser um ambiente propício para violências desse tipo. Nesse sentido, a Madre Superiora (Deborah Figueiredo) do colégio onde a criança estuda funciona como um elemento a mais de tensão, pois simboliza a educação, a tradição e a moral judaico-cristã, ao mesmo tempo em que sugere reflexões sobre pedofilia na igreja. Não podemos esquecer que as estatísticas apontam que casos de abuso infantil acontecem em espaços seguros e confiáveis da família, e os abusadores costumam ser pessoas muito próximas ou íntimas. O que me faz pensar no recente caso da criança agredida e morta pelo padrasto vereador.

Cena do espetáculo “Moléstia” Foto: Divulgação

Não é uma obra de fácil digestão. Todos ali são culpados e expostos nas suas brutalidades e paradoxos. Eu só conseguia pensar na criança. Eu senti raiva dos pais. Senti ódio do amigo. Fiquei me perguntando sobre as atitudes da mãe, as suas decisões. O texto traz alguns dilemas éticos interessantes para refletir, afinal, você confiaria seu filho perto de alguém que você sabe que é estuprador?

“Moléstia” é um cineteatro de alta qualidade. É uma peça densa, trágica, reflexiva e que soube confluir nas linguagens do teatro e do audiovisual na medida certa.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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