Sobre racismo, machismo e classismo, ‘Race’ é uma obra que incomoda

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Vai até o próximo dia 11 de abril o premiado espetáculo “Race”, da Cia. Teatro Epigenia, com direção de Gustavo Paso. A obra de 2017 ganha a sua versão online através da Lei Aldir Blanc. Já falei que esta temporada está incrível graças ao suporte do edital e fico feliz que semana passada o senado tenha aprovado o projeto de retomada da lei, que agora corre na câmara. Vamos torcer e acompanhar de perto, pois a cultura precisa de apoio governamental para que seus fazedores possam continuar trabalhando com dignidade.

A nova versão do espetáculo “Race” é filmada em palco italiano, mas com o diferencial do cineteatro, que explorou novos ângulos para as cenas. Bem bacana o resultado, conseguindo agregar dinâmica às camadas do texto.

“Race” é uma obra incômoda. Fala sobre racismo, machismo, classismo por diversos ângulos, criando tensões características da dramaturgia do norte-americano David Mamet, que assina o texto e é conhecido por obras controversas. A tensão, no caso, é moral e racial.

Narra-se o dilema ético de dois sócios advogados – um negro e um branco – na construção da defesa de seu cliente, um homem branco e rico acusado de estupro por uma mulher negra. São muitas camadas de discussões, a começar pelo próprio nome da peça “Race”, que em inglês tanto significa corrida, quanto raça, ambiguidade bem explorada na dramaturgia. Gosto da crueza das personagens interpretadas por Gustavo Falcão, Luciano Quirino e Marcos Breda. Mas quero destacar a única personagem feminina, interpretada pela Indira Nascimento, que serve de contraponto às lógicas racistas, classistas e machistas dos três homens. A atriz está sombria, agregando dramaticidade ao narrado. Muito bom! Mas vale ressaltar que basicamente ninguém presta na peça, mas o racismo comanda o tom das relações mostrando as complexidades humanas.

Luciano Quirino (E) e Gustavo Falcão interpretam os dois advogados da trama Foto: Gustavo Paso/Divulgação

A obra é repleta de metáforas dissonantes, como se sintetizassem o tensionamento das relações raciais em frases impactantes como “só as pessoas negras é permitido falar sobre raça”, que abrem uma série de reflexões no público. Este, ao mesmo tempo, é incomodado, instigado a se colocar no lugar do júri, explorando, assim, um campo metalinguístico, já que de certa forma o espectador também julga o espetáculo.

Os estereótipos também chegam à cena: hipersexualização, embranquecimento e assimilação se apresentam com naturalidade demarcando lugares sociais racistas. Numa perspectiva que me lembrou Nelson Rodrigues, não há vitória para o caso, pois o cliente é um estuprador, isto é, se ele for absolvido, quem perde é a moral e se ele for preso, quem perde é a dupla de advogados.

Race é, assim, uma obra sobre vergonha e culpa diante da sociedade que anseia ao acordar por “uma xícara de café e uma fofoca maldosa”. E ninguém quer carregar a vergonha de ser o centro da fofoca e muito menos expor a sua culpa. Saí reflexiva e questionando os processos de assimilação que nos cercam, pois a nossa sociedade se quer branca e ocidental, mesmo se a realidade aponta para outra coisa.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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