Teatro já é um gênero online

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Tenho consumido muito teatro online desde o início da quarentena, não apenas para ter conteúdo para esta coluna, mas, sobretudo, para acalmar a minha cabeça, porque viver no Brasil desgovernado está muito difícil. Esta experiência contínua me fez perceber que, de alguma forma, o teatro está se adaptando à nossa realidade pandêmica e aderindo à quarta revolução industrial, tornando-se um gênero online também.

Falo isso porque, passado o pânico de se perceber sem possibilidades, ele – flexível como só – adentrou às frestas e foi se moldando a esse novo nada normal. Posso dizer que já há teatro de todos os formatos atendendo a todas as plataformas. No Instagram e no YouTube das companhias teatrais pululam vídeos-performances, lives-performances, apresentações de peças completas, saraus, além de muita conversa nutritiva sobre o fazer artístico.

Quero indicar o canal da Cia Teatro Íntimo que, em comemoração aos seus 15 anos, vem trazendo discussões, literatura e performances em encontros muito inteligentes. Cito também os canais do Sesc, com ênfase no Sesc SP, que vem entregando uma série de obras teatrais adaptadas para o confinamento da quarentena. Algumas delas, inclusive, já foram temas de crítica desta coluna.

Os festivais de teatro, similarmente, aderiram ao online e me chamou a atenção o Festival Up, que, durante cinco meses, reuniu em seu site, teatro, literatura, circo, humor, dança e música diariamente. O festival termina no próximo dia 30 de setembro e vale a pena dar uma passeada por trabalhos tão diversos. Nele, indico as performances “Experimento de cura – garganta”, de Gabriela Vieira; “Carta à senhora solidão”, de Márcia Moraes; “Das sofridas algemas”, de Stain Canidi.

Com a pandemia, a Internet virou o refúgio para profissionais e amantes do teatro Foto: Deposiphotos

Ressalto, ainda, a experiência que tive assistindo “Numa terra estranha – 12 respirações”, de Sidney Santiago, que foi apresentada pelo Teatro Vivo. Foi incrível voltar a ver um palco italiano, apesar da solidão da plateia. Assistir teatro sem estar no teatro pode ser sim uma possibilidade de se consumir espetáculos.

As peças pros pequenos também estão se adequando e quero recomendar a linda obra infantil “Boquinha, e assim surgiu o mundo”, com Orlando Caldeira e direção por Lázaro Ramos. Assisti ao espetáculo em sua última temporada e fiquei muito feliz em saber que teremos a possibilidade de acessar a obra virtualmente nos dias 26 e 27 de setembro. Ingressos estão sendo vendidos pelo site Sympla.

O teatro é fôlego desde tempos imemoriais, e sua sagacidade em adaptar-se aos tempos mostra vitalidade, pois já podemos afirmar que ele é um gênero online. E quando se trata de trabalhadores da cultura, a vulnerabilidade é uma questão diante da Covid, pois sem vacina, dificilmente voltaremos às salas (apesar de todas as tentativas para abertura de teatros e cinemas que discutimos na semana passada). Assim, é urgente saber utilizar-se das ferramentas tecnológicas para sobreviver com Arte.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

PUBLICIDADE
Scroll Up