‘Tempestuosa Depressagem’: uma abordagem sobre males psíquicos com sensibilidade e seriedade

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Estamos em setembro, o sexto mês oficial de pandemia no Brasil e não está sendo fácil. Mortes, corrupção e desgoverno têm sido a toada das nossas experiências coletivas nos últimos meses, sem falar das infinitas aglomerações que já estamos fazendo como se a vacina estivesse em circulação. Nas conversas com amigos, ansiedade, tristeza e incertezas são temas compartilhados por nós e eu me pergunto o quanto estamos adoecendo (ainda mais!) mentalmente nos últimos meses.

A partir desta preocupação, voltei à performance “Tempestuosa Depressagem”, de Flávia Souza, dirigida por Tati Tiburcio, que estreou no projeto online “Arte em Cena” do Sesc RJ – assista aqui. Eu tinha visto a obra presencialmente há um ano, e foi uma nova experiência rever o trabalho sob os moldes da quarentena pelo YouTube, principalmente, porque, nesta versão, há um olhar artístico que incorpora a estética audiovisual como parte da construção do teatro online.

A performance trata dos males psíquicos e das subjetividades da saúde mental a partir do recorte de raça. De forma sensível, mistura relatos, visita lugares comuns e desvela preconceitos sobre o tema. Didaticamente, evidencia a negação do cuidado mental por parte da população negra atrelando a depressão às pessoas brancas e ricas, “porque quem é preto não tem tempo pra depressão”. Parece estranho, mas cresci ouvindo isso.

Flavia Souza (D) e Daniella Gomes em cena da montagem presencial da performance Foto: Divulgação

O ponto alto da performance é a construção das cenas por meio de uma linguagem corporal metaforizadora da loucura, da angústia e da lucidez da personagem de si e de sua condição. Há, ainda, na corporeidade, a presença de movimentos que remetem à gestualidade dos orixás do candomblé ketu, o que deixa o encenado ainda mais lírico.

Saí da apresentação com a sensação de a obra ter dialogado com as dificuldades de Ser e Estar negro atravessado por doenças mentais numa sociedade racista como a nossa. Pensando com o psiquiatra Frantz Fanon, me perguntava o quanto vestir máscaras brancas para sobreviver não fere a nossa subjetividade e cria barreiras no autocuidado. Em um país que nega a saúde básica de qualidade à sua população, acessar cuidados de saúde mental é quase impossível. E num momento pandêmico com recessão e preços altos temperados por violência, as preocupações por sobrevivência se tornam o problema central de nossos pensamentos.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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