Insólita, ‘Angustia-me’ é um passeio pelas frustrações de gente como a gente

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

“Insólita” seria a minha definição para a comédia dramática “Angustia-me” dirigida por Alexandre Mello e com dramaturgia de Julia Spadaccini e Marcia Brasil. Nela, vemos três encontros improváveis: um vendedor de uma loja de roupa masculina (Leandro Baumgratz) e uma balconista de uma loja de fast-food (Raquel Rocha) no fumódromo de um shopping; uma necromaquiadora (Maria Adélia) e o corpo de uma operária (Noemia Oliveira) que morreu numa queda acidental; e um jovem ator pornô (Fábio Ventura) que conversa com um veterano na área (Rogério Garcia), enquanto esperam a gravação num set de filmagem.

O prólogo já traz o incomum ao apresentar personagens com profissões diferentes como detectora de sexo de pássaros, cheirador de carros, provadora de caixões, e que, por momento, achamos que são ficcionais. Uma forma de introduzir a plateia ao mundo improvável dos diálogos adiante.

O público, então, se torna observador das angústias das seis personagens que, de tão comuns, são insólitas, beirando a invisibilidade, abrindo uma discussão filosófica sobre subalternidade e apagamento social. Assim, as frustrações, desejos, neuroses, derrotas, alegrias e vitórias trazem a dimensão humana em diálogo com as nossas experiências de viver. Vocês sabem que eu adoro quando a obra de arte se debruça sobre os dramas do existir, e “Angustia-me” também é sobre isso.

Os ambientes das histórias reforçam a semiótica da marginalidade das personagens: o fumódromo pouco ventilado e isolado do shopping; o set de filmagem de um filme pornô – gosto da direção de arte deste cenário, muito boa a falsa janela -; e o necrotério. A escolha da direção em quebrar as barreiras estéticas do próprio fazer teatral, traz uma metalinguagem muito interessante no fechamento da obra. Nesse sentido, a peça adentra o audiovisual se tornando híbrida, em que temos um cenário e performances teatrais com produção de cinema.

Noemia Oliveira (E) e Maria Adélia contracenam em “Angustia-me” Foto: Alyrio Traczenko/Divulgação

O texto é recheado de metáforas dissonantes, poderosas e impactantes, que nos incomodam e levam à reflexão: afinal como seria “morrer de si mesma” ou a sensação da “liberdade de morrer”? Com referências na psicanálise, o cine-teatro desperta-nos para as nossas próprias angústias: a de morrer, de perder, de correr atrás, de escape, de trabalho, de sonhar, de existir.

“Angustia-me” é um passeio pelas frustrações de gente como a gente, que se entregam aos desejos e não sucumbem porque sabem de suas responsabilidades. Um filme-teatro que nos deixa pensando sobre a vida e nossos sentimentos. Ideal para quem está querendo uma fuga para estes dias pandêmicos e angustiados.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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