Às vésperas das eleições, cabe a reflexão: o que os candidatos pensam em termos de cultura?

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Estamos na reta final para as eleições municipais de 2020 e, mais uma vez, precisamos convocar a lucidez na hora do voto. As cidades deste estado sofrem com o descaso e desgoverno em todas as áreas. A corrupção desenfreada em diferentes níveis também desanima. Entretanto, apesar de descrente na política hegemônica vigente, políticas públicas interferem diretamente nas nossas vidas. Sem casa, comida, saneamento, segurança, educação e cultura, passamos a negociar nossa humanidade em prol da sobrevivência.

Em termos de cultura, a situação é alarmante. Cidades como Magé e Belford Roxo, por exemplo, não possuem aparelhos culturais, e a população é impedida de acessar estes bens tão necessários para a sua construção de mundo. Quando se trata da cidade do Rio de Janeiro, camadas de racismo estrutural e classismo são introjetadas. Na Zona Sul, no Centro, na Barra da Tijuca e em pequena parte da Zona Norte, concentram-se teatros, museus, centros culturais, casas de shows, enquanto a Zona Oeste e grande parte da Zona Norte têm no máximo as lonas culturais que foram esquecidas e sucateadas na gestão do atual prefeito, que, sem sombra de dúvidas, tem uma das piores gestões da história carioca.

Neste cenário é importante que a gente pergunte aos nossos candidatos a prefeito e vereador quais as propostas para o campo cultural. O que se pretende em termos de teatro e centros de cultura? Quais as propostas para as praças e ruas da cidade? Eles discutem sobre o papel e o lugar das rodas de samba? Como fica a situação dos artistas de rua? Como funcionará o calendário cultural da cidade no pós-pandemia? Quais as propostas no campo da promoção de arte e cultura nas escolas? E ele possui um olhar para a região do Cais do Valongo e a Pequena África? O que ele propõe em termos de festivais e encontros literários?

Pensar cultura é pensar possibilidades de vida. E quando somos destituídos do acesso a ela, nossas potencialidades no mundo são reduzidas. Sem falar que a arte é uma das partes fundantes da nossa humanidade, pois rompe as barreiras do sensível, nos acalenta com o belo e movimenta com o incômodo.

O que os candidatos pensam em termos de cultura? Foto: Nelson Junior/ASICS/TSE/Dedoc

Deixo expresso, portanto, estas reflexões para que votemos conscientes de que a política hegemônica deve ser rompida. Olhar de perto quem você votou e ver se após o pleito ele se mantém idôneo e fiel às próprias propostas é essencial. Neste ano, decidi votar apenas em mulheres negras. Expliquei sobre isso nesse no artigo “Por que votar em mulheres negras”. Reproduzo um trecho abaixo:

Vale ressaltar, ainda, que 55% das candidaturas de mulheres negras nas capitais brasileiras estão concentradas em partidos de esquerda: Psol (4), Pstu (3), PT (2), PCdoB(1), UP (1) e outros nove partidos virão com uma representante cada: Cidadania, Democracia Cristã, PMB, Podemos, PROS, PSC, PSDB, PSL e PV.

Quando se trata de pessoas não hegemônicas na política hegemônica, a batalha torna-se ainda mais árida, já que, na terra brasilis, o racismo estrutural cega e o pacto narcísico da branquitude emudece. Sem esquecer que é a mesma estrutura de Poder que matou Marielle e até hoje não sabemos quem é o mandante e quais seus motivos.

Um pouco por afronta, descrença na política e esperança na experiência das mulheres negras que nestas eleições decidi votar nelas. Tomei esta decisão pautando o momento atual de descalabro e desgoverno. Sou muito preocupada com a idoneidade dos partidos que representam e fico me perguntando o quanto elas podem ser engolidas pela máquina, mas também sei mulheres negras sempre foram lideranças e pelas suas mãos encontramos os caminhos para a nossa resistência desde o sequestro transatlântico.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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