‘Mercedes’, sobre a primeira bailarina negra do Theatro Municipal, é uma boa para quem busca entretenimento e aprendizagem

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Está em cartaz no YouTube do Sesi-SP até o próximo dia 30, o espetáculo “Mercedes”, da Companhia Emù, que homenageia Mercedes Baptista, ícone da dança brasileira que completaria 100 anos no último dia 19 de maio. A versão online é uma adaptação de algumas apresentações das temporadas passadas, de forma a vermos diferentes ângulos das cenas. Eu assisti ao espetáculo presencialmente e não achei que a adaptação perde a qualidade do ao vivo – embora torça para assistir a uma montagem feita especificamente para esse formato virtual em outra oportunidade.

A peça é bem humorada e conta a difícil trajetória da primeira bailarina negra a fazer parte do corpo de baile do Theatro Municipal (RJ). Testemunhamos a sua luta pela incorporação das danças negras ao status de danças clássicas, além de conseguir instituir a disciplina de mesmo nome à formação do Theatro Municipal. Um legado respeitável que marca um lugar na história da dança nacional. Nesse sentido, o Ballet Folclórico Mercedes Baptista é um divisor de águas na dança contemporânea brasileira.

Apesar de acompanharmos os feitos da artista, é interessante observar a sua dimensão humana abordada nas contradições da personagem e seus embranquecimentos. Sol Miranda está sólida no papel e nos conecta com as nuances de Mercedes, e Ilea Ferraz expressa a sua subjetividade filosófica. Estão líricas! Saí pensando sobre o quanto eu também seria embranquecida se estivesse no lugar dela, e que. talvez. o racismo teria me feito desistir quando eu percebesse a minha “inadequação” ao espaço do balé clássico. Mais um motivo para admirar a dona Mercedes.

Gosto deste plano de fundo social que costura a obra, criticando a sociedade brasileira, seus racismos, machismos e classismos de forma irônica. O uso do riso para debater o tema trouxe leveza em tom de comédia dramática. Há ainda uma discussão sobre representatividade a partir do lugar ocupado não apenas por Mercedes, mas também pelos artistas do Teatro Experimental do Negro, entre eles Abdias Nascimento.

Ilea Ferraz em cena de “Mercedes” Foto: Daniel Barboza/Divulgação

A arteducação, portanto, é uma premissa do projeto, pois combate a história única que apaga as contribuições da população negra para a construção do mundo. O teatro, nesse quesito, é uma ótima ferramenta de avivamento histórico, já que cria novas semióticas e utiliza o poder pedagógico da arte, trazendo ao centro da cena narrativas e experiências afrocentradas.

Ariane Hime faz uma antagonista complexa, explorando a humanidade da personagem Eros, uma mulher de vanguarda que foi essencial para a formação de Mercedes Baptista, mas, ao mesmo tempo, uma concorrente ciumenta que se vê ameaçada no posto de maior nome das danças brasileiras. Um jogo de desamor, gratidão e (des)respeito.

“Mercedes” é uma boa para quem busca entretenimento e aprendizagem. Agregador para toda a família, o espetáculo ganha ainda mais importância quando sabemos que Mercedes, embora falecida antes da estreia, soube em vida desta homenagem. Algo que vira e mexe discuto nesta coluna. Precisamos homenagear nossos ícones em vida. Dá um quentinho no coração.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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