Vacinação lenta, desgoverno, auxílio emergencial, evolução no formato online… 1 ano dos efeitos da pandemia no teatro carioca

Aza Njeri

Aza Njeri

34 anos, doutora em Literaturas Africanas, pós-doutora em Filosofia Africana, pesquisadora, professora, multiartista, crítica teatral e literária, mãe e youtuber.

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No próximo dia 13, chegaremos a um ano do decreto do então governador Wilson Witzel para o fechamento de diversos setores do estado, inclusive a cultura. Acompanhando o lockdown, os teatros foram fechados, e a classe artística se viu na urgência de se readaptar, rumando para a modalidade do teatro online.

Muita coisa rolou durante esse primeiro ano de pandemia. Atingimos recordes de contaminação e já passamos das 260 mil mortes. Temos uma nova cepa do vírus originária do país, que, mais infecciosa, está vitimando pessoas jovens, algo até então, incomum. Isso sem contar no descompasso político em que o governo federal não demonstra nenhuma preocupação pelo cenário de desgraça coletiva. Pelo contrário, está trabalhando com afinco para o aumento de mortos por meio de declarações irresponsáveis e sem empatia com o luto que estamos vivendo. E os governos estaduais e municipais não conseguem falar a mesma língua, colocando os interesses políticos à frente da saúde da população. Isso sem falar na corrupção.

Diante deste cenário, o teatro conseguiu se manter vivo acompanhando as mudanças. Houve mobilização visando aos fazedores de artes com auxílio emergencial para a categoria, distribuição de cestas básicas e a lei Aldir Blanc, cuja temporada de trabalhos financiados está a todo vapor. Mas a falta de afinamento político no combate à Covid-19 trouxe muita insegurança e, quando em setembro de 2020, as salas reabriram, o que se viu foram plateias esvaziadas. Afinal, estar durante pelo menos uma hora em um ambiente fechado com ar condicionado não é recomendável num momento como o que vivemos. Fora que os camarins também são ambientes de pouca ventilação, aumentando o risco para as equipes.

Eu mesma ainda não voltei ao teatro presencial. Minhas críticas durante todo este período têm sido focadas no teatro online. Por isto, de alguma maneira, consigo ver um aprofundamento de técnica e qualidade deste novo formato híbrido estabelecido.

Quando a pandemia começou, o teatro passou a usar o YouTube para transmissão de peças gravadas em palco italiano. Depois começaram a surgir editais emergenciais que desafiavam os fazedores quanto a inovar seus projetos adaptando-os ao “teatro em casa”. Naquele momento, vários espetáculos estrearam configurados para o ambiente da sala das casas dos artistas, e já podíamos perceber novos caminhos criativos para o teatro, estabelecendo-se, definitivamente, no modelo do teatro online.

Com a propagação do vírus e muitas restrições, o teatro presencial não engrenou na pandemia (shutterstock.com)

No fim do segundo semestre de 2020 e neste primeiro trimestre de 2021, tenho percebido um maior conforto com as plataformas como o Zoom, e as peças estão ficando mais criativas no labor estético proposto pelo formato virtual. Já assisti uma série de obras em que a plateia se tornou agente ativo no direcionamento da narrativa, escolhendo dilemas, caminhos ou resoluções.

Atualmente, estamos com restrição de horários, com o decreto do prefeito Eduardo Paes restringindo os setores de comércio e serviços, entre eles, as salas de espetáculos, ao horário de fechamento às 20h. Com isso, apresentações marcadas fora deste limite de horário estão sendo antecipadas para mais cedo ou canceladas.

Eu não sei quanto tempo iremos continuar nesta situação. A desorganização na vacinação aponta para um túnel sem fim, mas ainda há esperança. Quanto ao teatro, ele já se tornou um gênero que também é online. E tem sido muito prazeroso ver trabalhos com tanta qualidade. Espero que em breve venham mais editais emergenciais, e as mobilizações em torno da garantia da dignidade mínima dos fazedores retornem, pois ainda estamos vivendo as incertezas pandêmicas.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para aza.njeri@rioencena.com.

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