Dias Gomes: Herói nacionalista ou vilão comunista?

Luciana Kezen

Luciana Kezen

35 anos, bacharel em Artes Cênicas pela UNIRIO, licenciada em Letras pela Estácio de Sá, atriz, escritora, tradutora e ávida leitora nas horas vagas.

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Estava tentando dialogar com Cafeína e Açúcar esta semana, procurando bons motivos para vestir verde e amarelo amanhã, 7 de Setembro. Gritos foram proferidos por todos, não exatamente frases que nos orgulhemos. Mas foi dito, e não podemos chorar pelo leite derramado. Entre um grito e outro, surgiu um nome que ecoa positivamente dentro da minha cabeça: Dias Gomes (1922-1999).

Conhecido pelos seus personagens que são tão brasileiros como o próprio escritor, Dias Gomes foi e ainda é uma grande referência na escrita brasileira. Revolucionário e sempre atual, Dias Gomes é responsável por grandes mudanças no nosso teatro também. “A Invasão” narra a saga de pessoas que perdem seus barracos devido a uma enchente (peça escrita de 1962, que, incrivelmente, lida com uma realidade a qual não conseguimos avançar em nada 58 anos depois) e vão ocupar uma construção abandonada. Baseada em fatos reais, esta estória leva para a cena uma questão que faz com que muitos, até hoje, ainda mudem o canal da televisão na hora do noticiário ou simplesmente virarem rapidamente a página de um jornal.

Suas tramas não param por aí. Das mais variadas versões de “O Bem-Amado” entre telenovelas, mini-série , filmes ou peças teatrais, como deixar de fora os moradores da agradável cidade de Sucupira? Odorico Paraguaçu, o prefeito, é um dos políticos mais reconhecíveis de todas as épocas. Corrupto, amoral e cheio de artimanhas, Odorico está sempre seguido do seu séquito de adoradores que preferem seguir o político cegamente ou simplesmente ignorar os fatos que maculam o prefeito. Mais preocupado com a inauguração de um novo cemitério na cidade sem se preocupar com as vidas alheias, nessa digníssima ficção de Dias Gomes, a justiça é feita tendo como primeiro defunto enterrado no cemitério o próprio prefeito.

Infelizmente, a vida nem sempre é tão justa como a ficção. Tenho que dizer, que gostaria muito de ver uma dúzia de políticos de hoje inaugurando alguns cemitérios pelo país a dentro. Contudo, nem sempre a vida imita a arte satisfatoriamente. Dias Gomes teve obras censuradas pela Ditadura no Brasil, sendo que isso não fez com que o prolífico autor recuasse.

Dias Gomes (1922-1999) Foto: Divulgação

Em “Campeões do Mundo”, Gomes volta a se utilizar de fatos ocorridos anteriormente para desenvolver a estória. Como o acontecido em Setembro de 1969, na peça, temos um Embaixador e Diplomata dos Estados Unidos sequestrado por um grupo de revolucionários que reivindicam a soltura de presos políticos e a publicação nacional de um manifesto. Diferente de 69, a peça de Dias Gomes tem como pano de fundo não necessariamente o Regime Militar Ditatorial que ocorria no país na época, mas, sim, a Copa do Mundo da FIFA de 1970.

Considerada sua obra-prima, “O Pagador de Promessas” conta a dificuldade de Zé-do-Burro de pagar sua promessa. Uma vez tendo sua graça alcançada e com o coração cheio de gratidão e inocência, o protagonista se propõe a levar uma cruz de madeira de sua casa até a Igreja de Santa Bárbara. Com um final não tão justo e satisfatório como “O Bem-Amado”, Zé-do-Burro se vê em problemas tendo feito sua promessa com uma Mãe de Santo de Candomblé e tentando levar sua cruz para dentro de uma igreja católica.

Apesar de ter vivido até os 76 anos, Dias Gomes teve sua vida encurtada por um acidente de carro em 1999. Em sua vasta carreira, Gomes nos presenteou com personagens tão brasileiros como qualquer pessoa cruzando a Presidente Vargas. De políticos simpáticos e corruptos até apropriação de espaços abandonados para uso de necessidade pessoal, esse dramaturgo baiano me deixa com uma boa sensação no coração para lembrar que ainda é válido comemorar esse 7 de Setembro tão desbotado que vejo à minha frente.

Um aperto de mão efusivo e até a próxima semana.
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para luciana.kezen@rioencena.com.

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