‘Eu Moby Dick’: para ficar em casa e lidar com sua própria grande baleia branca

Luciana Kezen

Luciana Kezen

35 anos, bacharel em Artes Cênicas pela UNIRIO, licenciada em Letras pela Estácio de Sá, atriz, escritora, tradutora e ávida leitora nas horas vagas.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Assim como Charles Dickens, Herman Melville é um renomado escritor da língua inglesa. Também, assim como Dickens, Melville tem uma das mais notáveis frases de aberturas de um romance na língua inglesa. E é exatamente desse ponto que começa a peça “Eu, Moby Dick”. “Trate-me por Ismael”.

Alguns séculos antes, Shakespeare termina sua peça “Hamlet” com todos mortos, e Horácio fica sendo o responsável por contar os acontecimentos ocorridos. Em “Moby Dick”, esse papel é destinado a Ismael. Maravilhoso, não? Tudo indica que estamos diante de uma inquestionável grande aventura. Só que no começo não foi bem assim para Herman Melville.

Que tal a carta de rejeição que Melville recebeu da editora inglesa Bentley & Son Publishing House pouco antes de sua grande obra prima “Moby Dick” ser publicada nos Estados Unidos: “Em primeiro lugar, devemos perguntar, tem que ser uma baleia? Embora este seja um enredo bastante encantador, embora um tanto esotérico, recomendamos um antagonista com uma aparência mais popular entre os leitores mais jovens. Por exemplo, o capitão não poderia estar lutando com uma depravação em relação a jovens, talvez, voluptuosas donzelas?”.

Esta carta é datada de 18 de Maio de 1851. Parece até uma piada, não? Eu não sei você, mas eu endento muito bem o que é receber “sugestões” sobre meu trabalho de alguém que não entende nada sobre arte. Ainda bem que Melville não se rendeu às mudanças sugeridas pela editora.

Hoje, 170 anos depois da carta, temos Moby Dick, a grande baleia branca, como um símbolo de algo a ser conquistado, muitas vezes até como um grande símbolo de obsessão.

No elenco, Gabriel Salabert, Kelzy Ecard, Márcio Vito e Noemia Oliveira se lançam no desafio de viverem ao mesmo tempo o Capitão Ahab, Ismael, Moby Dick e o próprio navio Pequod, levando a questionamentos sobre os caminhos escolhidos e confrontados. Para esta versão online, foram pensados videografismos que nos fazem viajar pelos subconscientes das personagens, suas reflexões, medos, anseios e ambições.

Kelzy Ecard (E), Márcio Vito, Gabriel Salabert e Noemia Oliveira no elenco Foto: Divulgação

Embarcar no navio Pequod é embarcar numa batalha entre a razão humana e o instinto animal, e confrontar-se com Moby Dick acaba sendo confrontar-se com os fantasmas que nós mesmos criamos, confrontar a si mesmo com a simples possibilidade de estar vivo ou ter que se deparar com a própria morte.

Esta nova versão, chamada “Eu, Moby Dick – Na rede”, trata a obra como um vídeo-arte, uma experiência digital imagética-sonora-sensória, que se aproveita dos recursos cinematográficos e multimídias para conduzir os espectadores nas profundezas da psique humana retratados na obra de Melville pelo viés da tecnologia, nas impactantes imagens criadas pelos irmãos Rico e Renato Villarouca e criação polifônica de Daniel Castanheira e Felipe Habib.

Gostaria de destacar a direção musical de Felipe Habib e Daniel Castanheira, que trazem para a montagem uma ambientação sonora angustiante como a relação dos personagens com a grande baleia branca.

E por favor, não se esqueçam que estamos em estado pandêmico no país. Fiquem em casa. Se houver uma necessidade de ir para rua, por favor, não esqueçam de usar máscara.

Um aperto de mão efusivo e até a próxima semana.
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para luciana.kezen@rioencena.com.

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