‘Moléstia’ não é para os fracos de estômago

Luciana Kezen

36 anos, bacharel em Artes Cênicas pela UNIRIO, licenciada em Letras pela Estácio de Sá, atriz, escritora, tradutora e ávida leitora nas horas vagas.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Com o número de mortes no país em estado de calamidade, acho um absurdo que teatro estejam liberados para serem abertos. Cheguei a pensar ter visto no ano passado uma faísca iluminando o fim do túnel, mas eu estava errada. Não tenho medo de admitir que estava errada. De dentro de casa, procuro maneiras e mais maneiras de continuar dentro de casa, de respeitar a minha vida e a vida dos que estão à minha volta, de manter a sanidade, de me manter informada, de trabalhar. E nesta semana assisti a um “filme-peça” ou um ‘cineteatro’ como define o diretor Marcéu Pierrotti.

Em “Moléstia”, de Herton Gustavo Gratto – que teve temporadas presenciais antes de todo esse pesadelo da pandemia começar a acontecer – o casal Breno e Mabel hospeda em sua casa Cadu, amigo de longa data, dando oportunidade para aprofundarem suas relações dúbias de amizade e atração física. Mas a confiança entre eles é quebrada quando o casal descobre que seu filho Thiago foi abusado sexualmente. Todos os indícios apontam para Cadu, disparando um agressivo jogo de manipulação que revela as sombras, melindres e julgamentos das personagens e da criação do filho.

O filme-peça traz o elenco original da montagem: o ator Ciro Sales, na pele de Cadu; Camila Moreira e Felipe Dutra, como o casal Mabel e Breno – marcados por uma relação desgastada e pela demanda de um filho autista; e Deborah
Figueiredo, que faz a Madre Superiora do colégio onde estuda Thiago.

O espetáculo leva à cena o tema abuso infantil Foto: Divulgação

Na montagem online, o jogo cênico dos personagens não é perdido, algo que se destacou muito positivamente aos meus olhos. Há um jogo de acusações no texto de Herton Gustavo Gratto que se destaca muito bem nesse formato filmado. O texto não é para os fracos de estômago, ele causa um incômodo tanto no que sai da boca dos personagens quanto nas atitudes de cada um dos quatro em cena. Incômodo, aliás, que tem que causar. Abuso sexual é um assunto sério, que somos, muitas vezes, levados a sentir vergonha de ter sofrido. Não faz sentido envergonhar uma vítima.

Enquanto os dias passam, sinto-me cada dia mais sendo abusada pelo meu próprio país, por esses governantes que não pensam além do próprio umbigo. Por mais que eu tente me manter positiva e esperançosa, tenho que dizer que perco forças para tal diariamente.

Um aceno de mão efusivo e até a próxima semana.
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para luciana.kezen@gmail.com.

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